São Paulo, 03 de Dezembro de 2016

/ Economia

Os negócios da quebrada - Entrevista com Carla Teixeira Panisset
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Coordenadora da Unidade de Desenvolvimento de Empreendimentos em Comunidades Pacificadas (UCP) do Sebrae RJ

Qual a maior dificuldade de empreender dentro da favela?

Existe um obstáculo que é comum para todos os empreendedores brasileiros: a falta de preparo montar um negócio. No caso das empresas que nascem em comunidades, esse problema é agravado devido à falta de estudo desses pequenos e médios empresários. O perfil mais comum de empreendedores dentro das comunidades pacificadas no Rio de Janeiro é de mulheres, negras, por volta de 40 anos e com sete anos de estudo.

O trabalho do SEBRAE é realizar palestras e capacitar esses empresários para que eles consigam gerir seus negócios. Durante os trabalhos realizados nas comunidades, tivemos que adaptar o material para uma linguagem mais acessível e que fosse compatível com a escolaridade desses empreendedores. Além disso, orientamos sobre diversos aspectos de um negócio, como o acesso ao crédito e precificação de produtos.

Desde 2010, fizemos 60 mil atendimentos e conseguimos formalizar mais de 6 mil empresários. Devido à localização geográfica e a forma como as construções foram organizadas, uma dificuldade especifica das favelas, está relacionado com a logística. Alguns fornecedores não conseguem entregar mercadorias: as ruas são muito estreitas e íngremes, então, caminhões não passam. A logística fica, geralmente, mais cara.

Existe um envolvimento entre os empreendedores das favelas e as comunidades onde eles estão inseridos?

Existem dois tipos de negócios dentro das comunidades cariocas: uns são para o consumo interno, como cabeleireiro, mercadinho, bar entre outros, e outros são voltados para o público externo, como os hostels e guias turísticos que trazem pessoas de fora para dentro das favelas. Em São Paulo, essa segunda modalidade ainda não é muito explorada.

No Rio de Janeiro, as favelas estão mais próximas do centro e dos demais bairros o que facilita o acesso e visibilidade. Já na capital paulista, as favelas estão nas periferias geográficas – poucas pessoas se locomovem para essas regiões, dessa forma, o contato é menor e, por isso, há menos negócios que são pensados para fora dessas comunidades.

Outra forma comum de envolvimento entre esses empresários e a comunidade é o empreendedorismo social que tem como intuito melhorar de alguma forma a situação das pessoas que moram naquela região. De modo geral e independente da modalidade de negócio, esses donos de estabelecimentos têm uma integração muito forte com os moradores da região.

Durante as entrevistas que realizamos nas favelas em São Paulo, percebemos que os empreendedores não pensam em deixar suas comunidades. Mesmo prosperando e tendo melhores condições de vida, eles continuam morando nas favelas. O mesmo acontece nas comunidades cariocas? 

Existe um sentimento de pertencimento muito grande, mas isso já acontece há alguns tempo. Esse é um fenômeno antigo. Há muitos anos, quando os migrantes vinham para o Rio de Janeiro e se instavam na favela, eles pensavam em melhorar de vida para sair desses locais o mais rápido possível. Hoje, as pessoas permanecem nas favelas. A maioria das pessoas que moram nas comunidades ainda quer melhorar de vida, mas desejam continuar na comunidade.

O que leva as pessoas a empreenderem nas comunidades?

A necessidade ainda é maior do que a oportunidade. Há caso que são exceção, como o caso do carteiro amigo, na favela da Rocinha. O fundador dessa empresa percebeu que ele e os outros moradores não recebiam as cartas e enxergou nisso uma oportunidade. Hoje, eles têm uma rede de franquias em várias favelas cariocas.

Então, a ausência do poder público, como no caso da falta dos correios, pode ser um estimulo para o aparecimento desses negócios?

Existem dois lados: o primeiro é que realmente essas lacunas que são uma oportunidade para os empreendedores abrirem novos negócios. A favela é um celeiro de oportunidades. O outro lado é que a falta do poder público gera muitas dificuldades. É complicado empreender sem apoios o apoio necessário. A maioria dos empreendedores ainda é informal e tem acesso a crédito de forma irregular. A favelas tem essa duplicidade um lugar de potência e de carência.

Existe uma mudança no discurso sobre as favelas e sobre seus moradores?

Essa mudança no discurso ainda não é perceptível. Ainda há muito preconceito com os moradores de favelas. Esses empreendedores estão ajudando a mudar discurso, mas isso ainda é sutil. As UPPs (Unidades de polícia pacificadora) também estão ajudando a mudar essa perspectivas e colocando os holofotes nas favelas.

Em São Paulo, algumas grandes redes de varejo estão montando lojas em favelas, como é caso da Marisa, que vende roupas femininas. Esse fenômeno também acontece no Rio de Janeiro? Isso pode de alguma forma prejudicar os pequenos empresários da região? 

Sim, isso também está acontecendo em grandes favelas cariocas, um exemplo é a rede Ricardo Eletro. Por enquanto, os pequenos não estão sofrendo com a entrada dessas grandes empresas porque não há concorrência direta.

Os pequenos empreendedores das favelas estão divididos em três grandes setores: alimentação, beleza e varejo em geral. Essas grandes lojas que estão entrando nas comunidades estão, na verdade, ajudando os pequenos empresários. Estão surgindo novos negócios a partir desses produtos que são vendidos na grande loja de varejo, como uma lojinha que concerta eletrodomésticos ou uma empresa de instalação de ar-condicionado.

As grandes redes de varejo estão ajudando movimentar a economia dentro da favela. Antes as pessoas tinham que sair da comunidade para consumir, hoje eles consomem dentro da favela.

 



A republicação deste artigo é uma homenagem do Diário do Comércio ao repórter Marco Roza, que morreu no dia 25 de abril, em consequência de um edema pulmonar

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