São Paulo, 24 de Setembro de 2016

/ Economia

Meirelles defende o câmbio flutuante
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Para o ex-presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, o equilíbrio deve ser acertado normalmente, com menos intervenção do governo nos movimentos do dólar

O ex-presidente do Banco Central (BC) e presidente do conselho de administração da J&F Investimentos Henrique Meirelles defendeu nesta sexta-feira, 13, o câmbio flutuante, ao afirmar que o equilíbrio deve ser acertado normalmente. Isso significa menor intervenção do governo em relação aos movimentos do dólar.

"O equilíbrio tem de ser acertado normalmente. E vamos lidar com as consequências", afirmou Meirelles a jornalistas, após proferir a aula magna do Programa de Pós-Graduação em Engenharia Civil do Centro Técnico Científico da PUC-Rio. Na aula, ele ainda traçou cenários diferentes para o crescimento da economia. 

Meirelles recusou-se a estimar se o nível atual do dólar já seria o de equilíbrio, mas comentou que "a tendência é de depreciação", embora a alta de 7% do dólar apenas nesta semana não estivesse nas projeções. "O [Boletim] Focus não previa essa subida", disse o ex-presidente do BC.

Segundo Meirelles, há razões externas e domésticas para a valorização do dólar. Enquanto a moeda norte-americana se fortalece no mundo todo, diante do maior crescimento econômico nos EUA e da expectativa de mudança na política monetária de lá, o déficit nas transações correntes, a questão da instabilidade política enfrentada pelo governo e o alto nível de incerteza na economia impulsionam ainda mais o movimento. 

Estimar o quanto cada um desses fatores (externos ou domésticos) pesa na alta recente do dólar é difícil, afirmou Meirelles.

O ex-presidente do BC tampouco quis avaliar o quanto da depreciação recente do câmbio (real) se deve a correções do passado e o quanto se deve a antecipações de movimentos futuros - como a mudança na política monetária norte-americana - e recusou-se a fazer comentários sobre o que espera para essa mudança.

Mais cedo, durante a aula magna, Meirelles destacou o déficit nas transações correntes, que já chega, como proporção do PIB (Produto Interno Bruto, a soma de todos os bens e serviços da economia), aos patamares do início dos anos 2000. Ao citar dados sobre a economia brasileira, ele chamou atenção para o boom nos preços das commodities desde o início dos anos 2000. 

"O Brasil passou a ter superávit nas transações correntes, o que foi importante para a estabilização", comentou Meirelles, para em seguida chamar atenção para a forte queda nas cotações de commodities a partir do ano passado.

"Agora, voltou a crescer o déficit", ressaltou o ex-presidente do BC, para quem, na época do boom das commodities, "o real estava muito forte".

CENÁRIOS PARA O CRESCIMENTO DO PIB 

A manutenção do status quo, num cenário básico em que o ajuste fiscal anunciado pela nova equipe econômica dá certo, a inflação volta à meta e as concessões em infraestrutura são destravadas, o crescimento econômico ficaria em média em 2,6% ao ano, em estimativas apresentadas por Meirelles.

Num cenário pessimista, em que o ajuste fiscal não é implementado e que a inflação não é totalmente controlada, o crescimento do PIB nos próximos anos ficaria em torno de 1,2% ao ano, segundo Meirelles.

Já num cenário otimista, o crescimento econômico poderia chegar a 4% ao ano. "Para isso, o Brasil tem de enfrentar questões fundamentais, como a logística, a questão tributária, a questão de energia e a educação", afirmou.

No início da fala, o ex-presidente do BC traçou um histórico da economia brasileira desde o início do século 20 e responsabilizou os períodos de financiamento por expansão da base monetária, segundo ele iniciado nos anos 1950 pelo presidente Juscelino Kubitschek.

"Todo exagero leva a uma ressaca. A farra é boa na hora, mas depois vem a ressaca. Na economia, a ressaca é pior", afirmou Meirelles, referindo-se à hiperinflação e à crise dos anos 1980.

Meirelles citou a crise internacional de 2008 como outro exemplo de "ressaca" na economia, mas não chegou a associar o momento atual do Brasil com a ideia. Ainda assim, defendeu a necessidade de ajustes na política econômica, sobretudo na política fiscal, e disse que a chamada "nova matriz econômica" não deu certo "por uma série de fatores", entre eles a elevação da inflação.



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