São Paulo, 03 de Dezembro de 2016

/ Economia

Lições de otimismo e persistência de duas notáveis empreendedoras
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Luiza Helena, do Magazine Luiza (em pé), e Chieko Aoki, da rede de hotéis Blue Tree, traçam o perfil do empreendedor de sucesso em debate mediado pela jornalista Silvia Poppovic (ao centro) no Congresso da Facesp, que acontece em Águas de Lindóia

Com crise ou sem crise, o empreendedor é aquela pessoa inquieta, que não se conforma com o fracasso do negócio, mesmo que o ambiente econômico não esteja lá muito favorável, a exemplo do que ocorre neste momento no Brasil. É aquele que vê o erro como aprendizado, aprende a lição, está disposto a enfrentar desafios todos os dias, a conviver com a falta de rotina e sabe extrair o melhor de cada pessoa envolvida em seu negócio.

O perfil do empreendedor de sucesso foi traçado por duas das mais conhecidas empresárias brasileiras: Luiza Helena Trajano, presidente do Magazine Luiza, e Chieko Aoki, fundadora e presidente da rede de hotéis Blue Trees, acompanhadas por Ana Fontes, fundadora da Virada Empreendedora e professora da Fundação Getúlio Vargas (FGV), durante o XV Congresso da Facesp (Federação das Associações Comerciais do Estado de São Paulo), que acontece em Águas de Lindóia (SP).

Durante o debate sobre empreendedorismo, Luiza Helena convidou a plateia, formada por cerca de mil pessoas ligadas às associações comerciais do Estado de São Paulo, a mudar de atitude. “Gente, além de todas estas crises que estamos vivendo, existe também a crise do reclamar”, diz Luiza Helena. “Tenho feito uma campanha para que eu, vocês e todo mundo paremos de reclamar, porque isso não conduz a nada. O Brasil não é dos políticos, o Brasil é nosso. Temos de assumir este país.”. E os empreendedores, segundo ela, são protagonistas fundamentais para ajudar a inverter qualquer processo de falta de confiança instalado na economia.

O Brasil já tem a vantagem, acrescenta Luiza Helena, de além de ser um país com espírito empreendedor contar com outro trunfo de causar inveja até a nações do primeiro mundo: possui um vasto mercado interno. “Somos 200 milhões de habitantes, dos quais 40 milhões entraram recentemente para o mercado de consumo. O Brasil precisa de 23 milhões de moradias para ter um nível de igualdade social de país desenvolvido nos próximos dez anos. Imagine quantos fogões, geladeiras e TVs eu posso vender ainda? O mercado existe. É só observar as estatísticas nacionais para a gente se animar”, afirma.

Para a empresária, o escândalo que envolve a Petrobras dá a sensação de que chegou ao fim o ciclo de falta de ética no país. “Está todo mundo saindo debaixo do tapete. Não é fácil para o empresário ficar na cadeia. Queremos que apurem tudo”, diz Luiza. “Agora, convido vocês a pesarem: como será que está a nossa empresa em relação aos compradores. Será que nós somos éticos mesmo? Acredito que as empresas têm de ser eticamente corretas e a cada dia lutar para baixar os impostos, diminuir a burocracia. Não vai ter mais espaço para o que não é ético. O comprador não pode receber nada pela compra de um produto e eu não posso dizer para o guarda não multar meu motorista.”.

De acordo com a empresária, sua tia, cujo nome batiza o Magazine, sempre foi exemplo de ética. “Ela nunca usou a expressão ‘me vende que eu te pago em dia’ porque, para ela, pagar em dia era eticamente correto”.

Para ela, o empreendedor precisa saber extrair o que cada funcionário tem de melhor e para ilustrar isso, contou uma história: “Eu tinha um caseiro numa fazenda que meu marido chamava de ‘ponto morto` porque ele não engatava primeira, nem segunda. Certo dia, uma vizinha precisou de um garçom de última hora e eu o indiquei. Bom, ele acabou se revelando um excelente garçom e acabou indo para minha casa de Franca. É isso, é preciso extrair o máximo das pessoas”, diz.

Este entendimento humano é tão importante quanto a necessidade de o empreendedor estar “antenado” com as novas tecnologias para atender o cliente nos multicanais. Hoje, segundo ela, já não dá mais para administrar uma empresa em ritmo de canoa. “Às duas horas da manhã posso ter um novo concorrente no mercado, a exemplo deste Alibaba. Não adianta dizer que detesta a internet. Eu, por exemplo, treino, treino e não desisto de entender as novas tecnologias”, diz.

''Na crise, a gente sente nascer uma força interna''

A exemplo de Luiza Helena, Chieko Aoki diz que nunca desistiu também de tentar inverter a má situação financeira vivida por seu marido no setor hoteleiro, também afetado por um grave problema de saúde. Depois de quitar todas as dívidas do marido, já doente, Chieko montou a rede de hotéis Blue Tree, que é a tradução do nome dela, e cuidou do marido.

“Acho que a gente fica muito forte na crise. Todo o ser humano, quando está na dificuldade, sente nascer uma força interna. Eu precisava sustentar meu marido e vi uma oportunidade”, afirma Chieko, à frente de uma rede com 23 hotéis em 18 cidades.

Com personalidades bastante distintas, Luiza Helena e Chieko fizeram a plateia rir com suas histórias, contadas, claro, com bom humor. As duas empreendedoras se tornaram amigas a ponto de Luiza Helena brincar: “Olha, eu tento ficar chique como ela, mas não consigo. E ela, do mesmo jeito, não consegue ser cafona como eu”.

 



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