Economia

Lições de otimismo e persistência de duas notáveis empreendedoras


Luiza Helena, do Magazine Luiza (em pé), e Chieko Aoki, da rede de hotéis Blue Tree, traçam o perfil do empreendedor de sucesso em debate mediado pela jornalista Silvia Poppovic (ao centro) no Congresso da Facesp, que acontece em Águas de Lindóia


  Por Fátima Fernandes 19 de Novembro de 2014 às 00:00

  | Editora ffernandes@dcomercio.com.br


Com crise ou sem crise, o empreendedor é aquela pessoa inquieta, que não se conforma com o fracasso do negócio, mesmo que o ambiente econômico não esteja lá muito favorável, a exemplo do que ocorre neste momento no Brasil. É aquele que vê o erro como aprendizado, aprende a lição, está disposto a enfrentar desafios todos os dias, a conviver com a falta de rotina e sabe extrair o melhor de cada pessoa envolvida em seu negócio.

O perfil do empreendedor de sucesso foi traçado por duas das mais conhecidas empresárias brasileiras: Luiza Helena Trajano, presidente do Magazine Luiza, e Chieko Aoki, fundadora e presidente da rede de hotéis Blue Trees, acompanhadas por Ana Fontes, fundadora da Virada Empreendedora e professora da Fundação Getúlio Vargas (FGV), durante o XV Congresso da Facesp (Federação das Associações Comerciais do Estado de São Paulo), que acontece em Águas de Lindóia (SP).

Durante o debate sobre empreendedorismo, Luiza Helena convidou a plateia, formada por cerca de mil pessoas ligadas às associações comerciais do Estado de São Paulo, a mudar de atitude. “Gente, além de todas estas crises que estamos vivendo, existe também a crise do reclamar”, diz Luiza Helena. “Tenho feito uma campanha para que eu, vocês e todo mundo paremos de reclamar, porque isso não conduz a nada. O Brasil não é dos políticos, o Brasil é nosso. Temos de assumir este país.”. E os empreendedores, segundo ela, são protagonistas fundamentais para ajudar a inverter qualquer processo de falta de confiança instalado na economia.

O Brasil já tem a vantagem, acrescenta Luiza Helena, de além de ser um país com espírito empreendedor contar com outro trunfo de causar inveja até a nações do primeiro mundo: possui um vasto mercado interno. “Somos 200 milhões de habitantes, dos quais 40 milhões entraram recentemente para o mercado de consumo. O Brasil precisa de 23 milhões de moradias para ter um nível de igualdade social de país desenvolvido nos próximos dez anos. Imagine quantos fogões, geladeiras e TVs eu posso vender ainda? O mercado existe. É só observar as estatísticas nacionais para a gente se animar”, afirma.

Para a empresária, o escândalo que envolve a Petrobras dá a sensação de que chegou ao fim o ciclo de falta de ética no país. “Está todo mundo saindo debaixo do tapete. Não é fácil para o empresário ficar na cadeia. Queremos que apurem tudo”, diz Luiza. “Agora, convido vocês a pesarem: como será que está a nossa empresa em relação aos compradores. Será que nós somos éticos mesmo? Acredito que as empresas têm de ser eticamente corretas e a cada dia lutar para baixar os impostos, diminuir a burocracia. Não vai ter mais espaço para o que não é ético. O comprador não pode receber nada pela compra de um produto e eu não posso dizer para o guarda não multar meu motorista.”.

De acordo com a empresária, sua tia, cujo nome batiza o Magazine, sempre foi exemplo de ética. “Ela nunca usou a expressão ‘me vende que eu te pago em dia’ porque, para ela, pagar em dia era eticamente correto”.

Para ela, o empreendedor precisa saber extrair o que cada funcionário tem de melhor e para ilustrar isso, contou uma história: “Eu tinha um caseiro numa fazenda que meu marido chamava de ‘ponto morto` porque ele não engatava primeira, nem segunda. Certo dia, uma vizinha precisou de um garçom de última hora e eu o indiquei. Bom, ele acabou se revelando um excelente garçom e acabou indo para minha casa de Franca. É isso, é preciso extrair o máximo das pessoas”, diz.

Este entendimento humano é tão importante quanto a necessidade de o empreendedor estar “antenado” com as novas tecnologias para atender o cliente nos multicanais. Hoje, segundo ela, já não dá mais para administrar uma empresa em ritmo de canoa. “Às duas horas da manhã posso ter um novo concorrente no mercado, a exemplo deste Alibaba. Não adianta dizer que detesta a internet. Eu, por exemplo, treino, treino e não desisto de entender as novas tecnologias”, diz.

''Na crise, a gente sente nascer uma força interna''

A exemplo de Luiza Helena, Chieko Aoki diz que nunca desistiu também de tentar inverter a má situação financeira vivida por seu marido no setor hoteleiro, também afetado por um grave problema de saúde. Depois de quitar todas as dívidas do marido, já doente, Chieko montou a rede de hotéis Blue Tree, que é a tradução do nome dela, e cuidou do marido.

“Acho que a gente fica muito forte na crise. Todo o ser humano, quando está na dificuldade, sente nascer uma força interna. Eu precisava sustentar meu marido e vi uma oportunidade”, afirma Chieko, à frente de uma rede com 23 hotéis em 18 cidades.

Com personalidades bastante distintas, Luiza Helena e Chieko fizeram a plateia rir com suas histórias, contadas, claro, com bom humor. As duas empreendedoras se tornaram amigas a ponto de Luiza Helena brincar: “Olha, eu tento ficar chique como ela, mas não consigo. E ela, do mesmo jeito, não consegue ser cafona como eu”.