Economia

Governo confuso recua e acaba mantendo o horário de verão


Temer queria suprimir a medida, em razão de uma economia menor de energia elétrica. Mas voltou atrás, e relógios deverão ser adiantados em uma hora, à 0h de domingo, 15 de outubro


  Por João Batista Natali 25 de Setembro de 2017 às 15:05

  | Editor contribuinte natali@uol.com.br


Michel Temer não precisava procurar mais pulgas para se coçar. Anunciou por meio de assessores que poderia acabar com o horário de verão. Mas agora voltou atrás.

O horário de verão entrará novamente em vigor, entre o terceiro domingo de outubro próximo (15/10), até o terceiro domingo de fevereiro de 2018. A confirmação foi feita pelo governo nesta segunda-feira (25/09).

A história tem três dimensões bem distintas.

1 – Foi um recado ruim aos consumidores de energia. Para os tecnocratas de Brasília, é preponderante o fato de, nos 126 dias em que vigorou pela última vez, a partir de outubro de 2016, o horário de verão ter gerado uma economia de irrelevantes R$ 159,5 milhões.

Aparentemente, essa economia não seria agora maior. Mas vejam o que acontece com os reservatórios de Santa Maria e Serra da Mesa, em Goiás. E com o Nordeste paulista. E com o semiárido do Nordeste.

Faltará água para gerar eletricidade. O fim do horário de verão seria um convite ao consumo. Um consumo que, por sua vez, será em parte compensado pelas termelétricas.

Elas deverão trabalhar mais se o consumo – que tende a se elevar com o final da recessão – for ainda maior.

Com o fim do horário de verão, o grande fator psicológico estaria em mais eletricidade para as redes domésticas, apesar do desincentivo da bandeira vermelha.

2 – O horário de verão gerou costumes que são convenientes para restaurantes e comércio. Nos bares, o faturamento do verão cresce 20%, e, nos restaurantes, 10%. São alguns dos setores da economia que se veriam prejudicados.

3 – Vejamos os efeitos na imagem do governo e as redes sociais. A baixíssima popularidade de Temer imediatamente lançou contra ele comentários pejorativos no Facebook, Twitter e Instagram.

As pessoas encontraram num motivo a mais para espinafrar o presidente. E o recuo não significa que o Planalto terá agora um patamar de aprovação maior. Ao contrário, será visto como inseguro e hesitante.

Com detalhes até pitorescos, como o de um professor da USP que confessou no Facebook sua perplexidade, por apoiar ao mesmo tempo o fim do horário de verão e a ideia de que Temer chegou ao poder em razão de um suposto “golpe”, o que tiraria dele a legitimidade para qualquer decisão.

Em resumo, o episódio tinha tudo para dar errado. E deu. Mesmo entre aqueles que consideravam o horário de verão como uma violência contra a estabilidade biológica do organismo, como o sono e os horários de refeições.

Temer esboçou o recuo neste domingo (24/09), em reunião com aliados do Congresso no palácio do Jaburu. Depois do encontro, a senha para o enterro da ideia partiu do deputado Aguinaldo Ribeiro (PP-PB), líder do governo na Câmara.

“Nós fizemos uma avaliação de que a tendência é que isso (o horário de verão) se mantenha.”

A informação foi confirmada 24 horas depois. E a ela se alinharam a Casa Civil da Presidência, encarregada de acompanhar o assunto, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (NOS), a Agência Nacional de Energia Elétrica e o Ministério de Minas e Energia.

UM POUCO DE HISTÓRIA

O horário de verão foi adotado pela primeira vez no Brasil no verão de 1931/1932, quando os efeitos da depressão americana afetavam em cheio a economia nacional e exigiam a redução do consumo de energia urbana.

Mas a ideia foi pela primeira vez adotada na Alemanha, em 1919. Envolvida na Grande Guerra, o país acreditava que o horário de verão desviaria eletricidade do consumo doméstico para o consumo industrial, onde vigorava o esforço bélico..

O plano deu tão certo que, além da Áustria-Hungria, aliada de Berlim, os países contra os quais a Alemanha lutava – como França e Reino Unido, também adotaram a medida.

A ideia foi abandonada depois do conflito e reinstituído com a nova Guerra Mundial, em 1939. Abandonada no início dos anos 1950, o plano voltou a vigorar nos anos 1970, desta vez como diretriz das instituições europeias.

A Suíça foi o último país a adotar o sistema, em 1981, que havia sido rejeitado em referendo em 1977.

Mas o recuo se deu pela incompatibilidade de conciliar essa teimosia com as conexões ferroviárias (trens da França para a Itália percorrem o território suíço).

Nas Américas, o horário de verão não é adotado pela Argentina, Colômbia, Peru, Equador ou Uruguai. E nem pelos Estados brasileiros das regiões Norte e Nordeste.

Nos Estados Unidos, por fim, a primeira sugestão – obviamente não adotada – partiu de Benjamin Franklin, em 1782, mas não para economizar a eletricidade, que ainda não existia. Mas para economizar a parafina das velas.

O horário de verão passou a existir em território americano, de modo homogêneo, só a partir de 1973. Foi quando o choque nos preços do petróleo, decidido pelo cartel da Opep, forçou a adoção de medidas de economia energética.

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