São Paulo, 30 de Setembro de 2016

/ Economia

Focus interrompe sequência de previsões cada vez mais pessimistas
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As projeções dos analistas do mercado financeiro para a inflação pararam de piorar pela primeira vez nesta semana. Na contracorrrente, Itaú prevê queda maior do PIB

Desde o início do ano, o relatório de mercado semanal Focus, do qual participam analistas de 25 instituições financeiras, vem projetando números cada vez piores para a economia brasileira - ao menos para a inflação e o PIB (Produto Interno Bruto, soma de todos os bens e serviços produzidos pela economia). 

No relatório divulgado nesta segunda-feira (13/4), as projeções se estabilizaram e até caíram em relação à inflação. Na contracorrente, o FMI (Fundo Monetário Internacional), Fundação Getúlio Vargas (FGV) e o Itaú Unibanco divulgaram revisões negativas para a recessão em 2015. 

Depois de 14 semanas consecutivas de revisão de alta para a inflação oficial medida pelo IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), o relatório Focus divulgou expectativa de 8,13% para o indicador em 2015. Na semana passada, a projeção era de 8,20%. 

Há um mês, a expectativa dos analistas para o IPCA era de 7,93%. O Banco Central (BC), responsável pela divulgação do Focus, espera uma inflação de 7,9% este ano. Apesar das diferenças entre os números, ambos correspondem a um indicador acima do teto da meta estipulado pelo governo, que é de 6,5% ao ano. 

Para o fim de 2016, a projeção para o IPCA no Focus foi mantida em 5,60%, o mesmo patamar de quatro semanas atrás. 

O grupo das cinco instituições que mais acertam, o Top 5, por outro lado, elevou a expectativa para o IPCA a 8,73% nesta semana, contra os 8,44% na semana anterior. Este grupo espera que a inflação fique em 6,40% no fim de 2016, percentual superior à projeção de 5,64% da semana passada. 

Depois da alta de 1,24% de janeiro, de 1,22% em fevereiro, e de 1,32% em março, o IPCA deve vir abaixo de 1% em abril. 

Segundo o relatório, a estimativa para este mês é de 0,65% para o IPCA. Em maio, a inflação pode esfriar mais e subir 0,48%, segundo o Focus. 

A inflação passou por pressões no primeiro trimestre deste ano por causa da correção dos preços administrados. Os analistas do Focus mantiveram a projeção de alta para esse grupo de preços em 13% neste ano. 

A expectativa é superior a do BC, que projetou alta de 11% para os administrados em 2015, número que considera os aumentos nos preços de gasolina, gás de bujão e energia elétrica. Para 2016, o relatório Focus mostra que a pressão desse conjunto de itens pode ser menor, de 5,50%. 

O tom mais ameno do relatório Focus para a inflação nesta semana refletiu a estabilidade dos demais indicadores, como juros, câmbio e PIB. 

Apesar de esperar que a taxa básica de juros Selic passe dos atuais 12,75% ao ano para 13,25% ao ano na reunião que ocorre no fim de abril, a projeção para o fim do ano ficou estacionada. 

Os analistas esperam que a Selic encerre 2015 em 13,25%, como na semana anterior. Para o fim de 2016, a projeção foi mantida em 11,50% ao ano de uma semana para a outra. 

 

 

Para os economistas que mais acertam as projeções, a Selic encerrará 2015 em 13,50% ao ano, previsão menor do que a registrada na semana anterior, de 13,75%. Para 2016, a expectativa é de que a taxa fique em 12% ao ano.

A expectativa para o dólar, que também influencia a correção da inflação, se estabilizou. O relatório Focus mostra que a projeção estacionou em R$ 3,25 para o dólar no fim deste ano, o mesmo valor da semana passada. Para 2016, a cotação esperada continua em R$ 3,30. 

Os analistas observam melhora na expectativa para o crescimento das exportações brasileiras, para um saldo comercial positivo de R$ 4,30 bilhões para este ano. Há um mês, a projeção era de R$ 3 bilhões. 

RECESSÃO: APESAR DO FOCUS, PIORA A EXPECTATIVA

Os analistas mantiveram a expectativa de queda de 1,01% para o PIB neste ano, na comparação com a semana passada. O fato é que há um consenso sobre a recessão neste ano, em um coro que tem sido reforçado por instituições financeiras, organismos internacionais e o BC, que já informou esperar um recuo de 0,5% na economia em 2015. 

O FMI (Fundo Monetário Internacional) divulgou na última sexta-feira (10/4) a projeção de queda de 1% para o PIB do Brasil. O organismo informou que a expectativa é que o crescimento seja retomado em 2016, mas de forma tímida, com um avanço de apenas 0,9%. 

Em janeiro, o Fundo tinha uma estimativa mais otimista: de crescimento de 0,3% neste ano e de 1,5% em 2016. 

A revisão para baixo refletiu as medidas recentes de ajuste fiscal, que afetam a atividade econômica - que já vinha fraca desde 2014 - das altas taxas de juros e dos cortes de investimento na Petrobras provocados pelas investigações da operação Lava Jato.

O FMI informou que uma aplicação bem-sucedida das medidas de ajuste na economia deve ajudar a melhorar a atividade mais à frente. O documento ressalta, porém, que o cenário para o Brasil está sujeito a "riscos significativos" de piora da economia, incluindo uma deterioração adicional da situação na Petrobras, o risco de agravamento da seca e possibilidade de racionamento de energia elétrica e ainda um cenário externo mais adverso.

O Ibre/FGV (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas) revisou negativamente a projeção para a economia neste ano. A expectativa é que o PIB caia 1,2%, puxado pela queda de 5,2% da indústria de transformação, no recuo de 0,6% no consumo das famílias e na baixa de 0,2% no setor de serviços. 

Para o IPCA, a projeção da FGV é de alta de 8,5% no fim de 2015. Salomão Quadros, superintendente adjunto da Superintendência de Preços do Ibre/FGV, diz que a forte alta do dólar é a principal novidade do cenário para a inflação neste início de ano. Para ele, a projeção para a inflação é 8,4% se a cotação do dólar no fim do ano for de R$ 3,25. Se a taxa de câmbio encerrar o período em R$ 3,40, o IPCA encerraria o ano em alta de 8,6%.

ILAN GOLDFAJN, ECONOMISTA-CHEFE DO ITAÚ: PIB NEGATIVO

 

Já o departamento de pesquisa macroeconômica do Itaú Unibanco revisou para baixo a projeção para a economia brasileira em 2015. Em relatório divulgado na sexta-feira (10/4), a equipe coordenada pelo economista-chefe Ilan Goldfajn alterou de uma queda de 1,1% para um recuo de 1,5% a variação do PIB neste ano. 

Também foi revisada a projeção para o desempenho do PIB em 2016, de alta de 1,1% para avanço de 0,7%. O menor otimismo sobre a atividade econômica no país justifica-se, segundo o relatório, pelo resultado de 2014, que mostrou a economia estagnada, somado à deterioração do mercado de trabalho, das perspectivas e da confiança de empresários.

Outra revisão da equipe de Goldfajn que mostra um cenário mais negativo para a economia brasileira ocorreu sobre a inflação. O banco espera que o IPCA encerre 2015 com uma variação de 8,2%, ante a perspectiva anterior de 8%. 

Diante desse cenário, de atividade mais fraca e inflação mais alta que o esperado anteriormente, a equipe de economistas prevê o fim da alta da Selic na reunião que ocorre no fim deste mês. No entanto, eles ainda têm dúvidas se o aumento será de mais 0,50 ponto percentual ou mais 0,25 ponto.

*Com informações de Estadão Conteúdo



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