São Paulo, 04 de Dezembro de 2016

/ Economia

Em decisão unânime, Copom eleva a Selic para 12,25% ao ano
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A terceira elevação consecutiva dos juros pelo Banco Central logo após anúncio de alta da carga tributária recebe críticas de entidades empresariais e protestos de sindicatos

Com a perspectiva de que a inflação seria a maior em uma década e um cenário cada vez mais claro de estagnação econômica em 2015, o Comitê de Política Monetária (Copom) aumentou nesta quarta-feira, 21, a Selic em 0,50 ponto porcentual, para 12,25% ao ano. A terceira elevação consecutiva dos juros pelo Banco Central se dá logo depois de um anúncio de alta da carga tributária e faz com que a taxa atinja o maior nível desde julho de 2011, quando estava em 12,50% ao ano.

A decisão foi tomada de forma unânime por todos os membros do Copom. O comunicado de hoje, que se seguiu à decisão, foi um dos mais enxutos dos últimos tempos.

Isso ocorre dois dias depois que o Ministério da Fazenda aumentou impostos de importação, de crédito, para o setor de cosméticos e para os combustíveis. As medidas podem ser um agravante para a já esperada estagnação da economia este ano. Em Davos, na Suíça, o titular da pasta, Joaquim Levy, disse que o Brasil poderá registrar um Produto Interno Bruto (PIB) negativo em algum dos trimestres de 2015 e que o desempenho da economia brasileira estaria próximo a zero.

Apesar disso, as ações foram bem recebidas pelo mercado porque significariam maior austeridade do governo, ajudam na eficácia da política monetária e auxiliaram até na valorização do real, o que é um problema a menos para a inflação que o BC promete controlar. A questão é que, ao mesmo tempo, esse aumento da carga gera outras pressões sobre os preços, principalmente os administrados pelo governo, que já estão mais sobrecarregados este ano.

Depois do anúncio de mais impostos na segunda-feira, no entanto, as estimativas para a inflação deste ano subiram e já indicam que o IPCA vai romper o limite superior de tolerância de 6,50%. É crescente o cálculo de uma taxa acima de 7%, o que seria a maior desde 2004, quando ficou em 7,60%. O discurso da instituição, no entanto, é de que ao longo do ano haverá um enfraquecimento das taxas a ponto de permitir que o BC entregue a inflação no centro da meta de 4,5% em 2016.

EFEITOS NO COMÉRCIO

De acordo com projeções da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), a alta da Selic para 12,25% ao ano deve fazer com que os juros cobrados no comércio subam de 76,53% para 77,34% ao ano. A taxa de juros média do cartão de crédito, por sua vez, deve aumentar de 258,26% para 259,81% ao ano. No caso do cheque especial, os juros cobrados pelos bancos subirão de 178,80% para 180,03% ao ano.

As operações de crédito em bancos e financeiras também vão ficar mais caras. A taxa de juros média do Crédito Direto ao Consumidor (CDC) oferecido por bancos para compra de veículos, por exemplo, subirá de 24,46% para 25,05% ao ano. Já os juros cobrados pelo empréstimo pessoal realizados por bancos vão aumentar de 53,05% para 53,76%, enquanto os concedidos por financeiras passarão de 133,96% para 135,01%.

No caso das empresas, a alta da Selic para 12,25% ao ano fará com que a taxa de juros para capital de giro aumente de 26,82% para 27,42% ao ano. Os juros das linhas de desconto de duplicadas, por sua vez, passarão de 36,07% para 36,71%. No caso da conta garantida, a taxa subirá de 101,68% para 102,59%.

REPERCUSSÃO

“A elevação da Selic, embora de acordo com as perspectivas do mercado financeiro, afigura-se como equivocada, considerando-se o baixo nível das atividades econômicas e a forte desaceleração do consumo”, disse Rogério Amato, presidente da Associação Comercial de São Paulo (ACSP) e da Facesp. “Deve-se ressaltar que a elevação do IOF para as pessoas físicas, bem como o aumento de tributos e tarifas – o que drena parcela importante da renda da população - poderão agravar a desaceleração em curso”.

Além disso, segundo Amato, os custos das empresas e os investimentos serão afetados negativamente, comprometendo ainda mais o crescimento da economia. “Consideramos que, mais importante do que elevar os juros ou aumentar tributos, é cortar os gastos para controlar a inflação.”, afirmou.

AMATO: DECISÃO EQUIVOCADA

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) também criticou a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de elevar a taxa básica de juros da economia brasileira em meio ponto porcentual. Para a CNI, o aumento dos juros dificultará recuperação da economia. No início da noite desta quarta-feira, 21, o Copom resolveu, por unanimidade, elevar a Selic de 11,75% para 12,25% ao ano.

Em nota, a CNI avalia que os efeitos diretos da elevação dos juros são o aumento dos custos dos financiamentos, a dificuldade de acesso ao crédito e a consequente redução do consumo das famílias e dos investimentos das empresas.

De acordo com a confederação, manter a estabilidade e buscar o ajuste fiscal é importante para criar um ambiente de credibilidade e confiança no País, que estimule os investimentos e a competitividade da indústria brasileira.

A alta da Selic em meio ponto porcentual, para 12,25% ao ano, vai deprimir ainda mais a economia, que cresceu muito pouco no ano passado, e vai agravar a situação da indústria, aponta a Força Sindical. Em nota, a entidade diz que a medida é contrária a qualquer projeto de desenvolvimento para o País.

"Esta medida nefasta, além de manter a taxa Selic em patamares proibitivos e colocar à mostra a insensibilidade do governo ante as demandas da classe trabalhadora, impede o crescimento da produção, do consumo e a geração de empregos", cita a nota da Força Sindical assinada pelo presidente da entidade, Miguel Torres.

Integrantes das centrais sindicais União Geral de Trabalhadores (UGT) e Central Geral dos Trabalhadores do Brasil (CGTB) se reuniram em frente ao Banco Central, na Avenida Paulista, em São Paulo (SP), nesta terça-feira (20), para protestar contra a reunião do Copom.



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