São Paulo, 04 de Dezembro de 2016

/ Economia

Em Águas de Lindóia, empresários pedem ação para recuperar a economia
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Para representantes do comércio, indústria e agronegócio reunidos no XV Congresso da Facesp, é preciso esforço concentrado de governo, empresas e sociedade para que o Brasil não perca as conquistas dos últimos anos

Como vai ficar a economia brasileira após o escândalo que envolve a Petrobras? A inflação e as taxas de juros vão continuar subindo? As reformas trabalhista, fiscal, necessárias para que o país volte a crescer vão finalmente se materializar? O nível de emprego voltará a cair, como apregoam alguns economistas? Os consumidores conseguirão quitar dívidas assumidas até agora e voltar a gastar? Enfim, o que esperar de 2015?

Eis algumas das preocupantes questões levantadas hoje durante o XV Congresso da Federação das Associações Comerciais do Estado de São Paulo (Facesp), que acontece em Águas de Lindóia (SP), com a participação de representantes da indústria, do comércio e do agronegócio e de uma plateia ávida por respostas, formada por aproximadamente mil pessoas ligadas às associações comerciais do Estado de São Paulo.

As intervenções de Rogério Amato, presidente da Facesp e da Associação Comercial de São Paulo, Dorival Dourado, presidente da Boa Vista Serviços. Benjamin Steinbruch, diretor-presidente da CSN e do grupo Vicunha e vice-presidente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) e João Sampaio, ex-secretário paulista de Agricultura e Abastecimento deixaram uma certeza: será necessário esforço concentrado do governo, das empresas e da sociedade para que o país engate o rumo do crescimento no ritmo de até um ou dois anos atrás e não perca, assim, tudo o que foi conquistado.

Alguns indicadores mencionados durante o congresso revelam que 2015 será um ano difícil. A confiança dos consumidores e dos empresários está em baixa, o que restringe o consumo e os investimentos. A oferta de crédito está mais restrita, os gastos públicos acima do previsto e há muita expectativa no mercado, agora intensificada com o escândalo da Petrobras, que colocou executivos da estatal e de grandes empreiteiras na prisão.

“O cenário para 2015 é de cautela”, afirma Dourado. “Os cedentes de crédito estão bem mais seletivos, principalmente para os consumidores e para micro, pequenas e médias empresas. Hoje, a prioridade é a modalidade de crédito de baixo risco, ou seja, de longo prazo, como o crédito imobiliário e o consignado.”

O que se observa, segundo afirma Dourado, é uma tendência generalizada de desaceleração para praticamente todos os segmentos do comércio, principalmente de veículos e autopeças, que haviam registrado um boom de vendas em 2008 e 2009. Favorável a subsídios do governo para estimular as vendas, Dourado justifica: “Estamos desacelerando e precisamos de ações efetivas que mudem esta tendência.”


Steinbruch, da CSN, demonstra preocupação com a combinação de desemprego, vendas em queda e juros em alta 
Fotos: Paulo Pampolim

Na indústria, a situação não é diferente. “Infelizmente, não tenho boas notícias. O setor vive uma realidade dura, que precisa ser consertada rapidamente”, disse Steinbruch. Esse caminho, segundo afirma, é a exportação. “Acredito que o real ficará mais fraco, o que nos possibilita exportar mais e importar menos. Mas, juntamente com isso, teremos aumento de juros, que já são os mais caros do mundo. Poderia haver menores juros, se houvesse melhor gestão”, afirmou o presidente da CSN. Como inexiste estímulo ao consumo e há receio de desemprego, a tendência é que as vendas estarão em queda no próximo ano. “Ninguém quer comprar carro e geladeira, sabendo que o emprego de alguém da família está em risco. E não vejo medidas práticas para minimizar este problema.”

A retração do setor automobilístico, segundo ele, pode provocar desemprego em cascata na cadeia produtiva, afetando principalmente o Estado de São Paulo. “O setor automobilístico emprega 1,5 milhão de pessoas. Se houver corte de 20% desse pessoal, isso equivale a 300 mil empregos. Ocorre que o resto da cadeia automobilística emprega 1,35 milhão de pessoas” Se as montadoras podem optar por férias coletivas, isso não é possível para as empresas do restante da cadeia. “Aqueles que não conseguem vender e pagar em dia acabam por desempregar. É um problema que está correndo solto em São Paulo”, disse Steinbruch.

Contribui para agravar o quadro, segundo Steinbruch, um enxugamento da economia mundial e o Brasil, como exportador de matérias-primas, já sofre as consequências, sem que haja reações por parte do governo. “O fato é que a indústria e o Estado têm de agir como agimos em casa. Todos nós temos de nos adaptar ao orçamento, gastamos o que podemos gastar e com prioridades. Isso vale para a pequena, a média e a grande indústria e para o governo. Só que o país não tem feito isso. Estamos gastando mal os recursos num momento em que a arrecadação diminui. Estamos jogando fora tudo o que havíamos conquistado há pouco tempo”, diz.


Dourado, da Boa Vista: crédito está mais seletivo, principalmente para pequenas e médias empresas

AGRONEGÓCIO

E no agronegócio, um dos setores em que o país é mais vocacionado, qual a situação? Sampaio, ex-secretário da Agricultura, se valeu do desabafo de um agricultor de Barretos, sua cidade natal: “O mato está alto para carpir e baixo para roçar. A situação está difícil, mas vamos encarar”.

Depois de bater índices recordistas de produção e de exportação de soja, açúcar, café e carnes nos últimos anos, o setor voltou a mudar de rumo neste ano. Entre os problemas por ele citados figura a regra estabelecida pelo governo que condiciona a obtenção de crédito para custeio da produção ao pagamento do crédito anterior, fator de desestímulo à produção.

No caso de produtos como a soja, a tendência é de queda de preços por conta de uma safra abundante. “O mundo vai colher 300 milhões de toneladas. Sucede que há uma desaceleração nas compras da China”, afirmou. “Isso significa que o estoque mundial do grão vai subir e, como consequência, os preços vão cair, a exemplo da queda de 17,5% neste ano”.

A laranja, outro produto que já rendeu muito para o Brasil, também não deverá ter um bom desempenho em 2015. O Brasil é hoje o maior produtor mundial de laranja: de cada dez copos de suco, sete são produzidos no Estado de São Paulo. Mas o consumo de suco de laranja está em queda nos Estados Unidos e na Alemanha. Os consumidores optam por energéticos, alegando que suco de laranja contribui para a obesidade. “O fato é que temos muita competência para produzir laranja, mas temos excesso de oferta e o governo precisa agir diante disso”, diz Sampaio.

"Neste momento, a articulação é muito importante", diz Amato


Amato, presidente da Facesp, enfatizou a necessidade de organização, articulação e comunicação

Como cobrar do governo ações para resolver todas estas questões relacionadas à falta de confiança na economia por parte dos consumidores e dos empresários, à queda de produção de carros e outros bens, à menor rentabilidade nas exportações de commodities, ao maior endividamento das famílias, à tendência de aumento de inflação e juros?

Na avaliação de Amato, presidente da Facesp, organização e articulação são duas palavras que precisam estar na cabeça de toda a sociedade para que ela possa ser ouvida. “No Brasil, está todo mundo falando alguma coisa, mas nós estamos nos perdendo na comunicação”, diz. “Temos de encontrar meios de fazer com que a representatividade do setor produtivo seja mais objetiva. Tudo nos leva a acreditar que, dado o momento que estamos vivendo, a articulação é muito importante. Necessitamos e pedimos a ajuda dos investidores para que eles renovem a crença nos valores que devem balizar as nossas vidas.”



Recuperação depende de uma evolução positiva do cenário político e da realização de um ajuste fiscal efetivo

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No total, mais de 2 milhões de empreendedores receberam orientação para os negócios em 2016

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