São Paulo, 25 de Setembro de 2016

/ Economia

Dívidas e inadimplência levam consumidor ladeira abaixo
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Indicadores distintos mostram famílias mais endividadas e com menor capacidade para saldar compromissos. Na outra ponta, as empresas também passam por dificuldades

A proporção das famílias com dívidas ou contas em atraso aumentou na comparação mensal, passando de 19,7%, em abril, para 21,1%, em maio. Também houve alta no porcentual de famílias inadimplentes em relação a maio de 2014, quando esse indicador alcançou 20,9% do total de entrevistados.

Os números fazem parte da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), divulgada nesta quinta-feira, 28, pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). 

O porcentual de famílias que relataram ter dívidas entre cheque pré-datado, cartão de crédito, cheque especial, carnê de loja, empréstimo pessoal, prestação de carro e seguros subiu para 62,4% em maio, ante 61,6% em abril. O porcentual, entretanto, ficou abaixo dos 62,7% de maio de 2014.

Além disso, o porcentual de famílias que declararam não ter condições de pagar suas contas ou dívidas em atraso e que, portanto, tenderiam a permanecer inadimplentes, também aumentou nas duas bases de comparação, alcançando 7,4% em maio de 2015, ante 6,9% em abril passado e 6,8% em maio de 2014.

"Apesar da moderação no crescimento do crédito, a alta das taxas de juros e o cenário menos favorável no mercado de trabalho, com queda na renda real do trabalhador, provocaram impactos negativos nos indicadores de inadimplência", diz o comunicado da CNC.

CRÉDITO

A menor capacidade do consumidor em arcar com seus compromissos financeiros afeta, na outra ponta, a procura por novos empréstimos. A demanda do consumidor por crédito caiu 1,2% em abril ante março, descontados os efeitos sazonais, segundo pesquisa da Boa Vista SCPC (Serviço Central de Proteção ao Crédito). 

Na comparação com abril do ano passado, a queda é de 13,8%. No acumulado dos quatro primeiros meses do ano há retração de 11,2% ante igual intervalo de 2014. Em 12 meses, a procura registra baixa de 10,2%, o menor nível desde o início da série histórica, há cinco anos.

"O consumidor tem sido mais cauteloso em tempos de incertezas. Os fatores macroeconômicos têm contribuído decisivamente para a piora do índice ao longo dos últimos meses. A alta das taxas de juros, a inflação consistentemente elevada e a piora do mercado de trabalho são algumas das variáveis condicionantes deste cenário", dizem os analistas da Boa Vista em nota. 

A empresa argumenta que uma inflexão da tendência da procura por crédito somente se concretizará com a melhoria da confiança na economia, "cenário factível caso se consolidem os ajustes de política monetária e fiscal, atualmente em curso".

Considerando os segmentos que compõem o indicador, a demanda nas instituições financeiras caiu 2,2% em abril, na margem, enquanto para o segmento não-financeiro a queda foi de 0,6%. Na variação anual, as baixas foram de 14,4% e 13,4%, respectivamente.

INADIMPLÊNCIA NAS EMPRESAS

Os economistas da Serasa Experian também atribuem ao quadro de desaceleração da economia como responsável pela incapacidade das empresas de quitarem suas dívidas. Segundo nota da Serasa, o cenário atual prejudica a geração de caixa das empresas e a alta dos juros encareceu os custos financeiros no mês de abril, levando mais companhias a atrasar o pagamento. 

O atraso no pagamento por parte das companhias avançou 12,1% em abril na comparação com igual mês de 2014, e registrou o mesmo índice de alta no acumulado dos quatro primeiros meses do ano ante igual período do ano passado. 

Em relação a março, no entanto, houve retração de 5,8% do Indicador Serasa Experian de Inadimplência das Empresas. Para os economistas da Serasa, a queda na margem se deve à menor quantidade de dias úteis em abril (20) que em março (22).

Na passagem de março para abril, houve queda em três dos quatro componentes do indicador: títulos protestados (-18,0%), cheques sem fundos (-7,1%) e dívidas não bancárias, junto aos cartões de crédito, financeiras, lojas e prestadoras de serviços (-0,5%). Já as dívidas com os bancos avançaram no período (2,2%) e limitaram o recuo da inadimplência na margem.

De janeiro a abril, o valor médio dos cheques sem fundos aumentou 12,0% na comparação com o mesmo período de 2014, para R$ 2.464,58. O valor médio dos títulos protestados avançou 7,6%, para R$ 2.325,89, no período. 

O valor médio das dívidas não bancárias cresceu 1,9%, para R$ 874,12 na mesma base comparativa. Já as dívidas com os bancos tiveram o valor médio 15,3% menor no primeiro quadrimestre ante igual período de 2014, para R$ 4.249,02.

CONFIANÇA 

A economia em ritmo lento, com um consumidor menos disposto a gastar e com poder de compra menor, tem afetado a confiança dos empresários. Em maio, a Confiança da Indústria (ICI) caiu 1,6% ante abril, passando de 72,8 para 71,6 pontos, segundo a Fundação Getulio Vargas (FGV). 

Com o resultado, o índice atinge o menor nível da série mensal, iniciada em outubro de 2005. Dos 14 segmentos pesquisados, dez registraram queda na margem. Na comparação com maio de 2014, a retração foi de 21,2%.

A FGV também informou que entre abril e maio o Nível de Utilização da Capacidade Instalada (Nuci) recuou 0,9 ponto porcentual, para 79,0%, a menor marca desde maio de 2009 (78,9%).

EMPREGO NA CONSTRUÇÃO

O nível de emprego na construção brasileira registrou queda de 0,78% em abril em comparação a março. O saldo entre demissões e contratações ficou negativo em 25,4 mil trabalhadores com carteira assinada, de acordo com pesquisa elaborada pelo SindusCon-SP (Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo) em parceria com a FGV.

Essa é a 14ª retração mensal consecutiva. Nos primeiros quatro meses do ano, o saldo negativo soma 90,2 mil vagas, indicando queda de 2,72% em relação a dezembro. Com isso, ao final de abril o número de trabalhadores do setor totalizava 3,228 milhões.

Em relação a abril de 2014, foram fechadas 327,4 mil vagas (-9,21%). Na comparação do acumulado no ano contra o mesmo período do ano anterior, a queda foi de 7,89%, uma redução de 279,6 mil empregos. 

Segundo o presidente do SindusCon-SP, José Romeu Ferraz Neto, “as demissões eram aguardadas no cenário recessivo que se abateu sobre todos os segmentos da construção. E as expectativas não melhoraram após o anúncio dos cortes no orçamento”.

*Com informações do Estadão Conteúdo

 



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