Demissões ganham força no comércio


2016 começa com 30 lojas do Walmart fechadas e a perda de 2 mil vagas. Em dezembro, comerciários desfilaram pela 25 de Março em marcha contra o crescente desemprego


  Por Karina Lignelli 08 de Janeiro de 2016 às 13:00

  | Repórter lignelli@dcomercio.com.br


Na virada do ano, mais uma surpresa decepcionante. A rede Walmart iniciou o fechamento de 30 de suas 500 lojas no país, sob a alegação de “baixo desempenho”, conforme informou a empresa em nota.

Essa reestruturação deve custar em torno de 2 mil postos de trabalho, de acordo com Ricardo Patah, presidente da União Geral dos Trabalhadores (UGT) e do Sindicato dos Comerciários de São Paulo.

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O processo atingirá, em sua maioria, supermercados das bandeiras Nacional, Mercadorama, Big e Maxxi, localizados no Rio Grande do Sul e Paraná e adquiridos do grupo Sonae (cerca de 20 lojas).

Mesmo com apenas duas unidades na lista – uma loja de vizinhança Hiper Todo Dia, no extremo da Zona Leste, e o Walmart do Central Plaza Shopping –, São Paulo perdeu cerca de 150 vagas na capital, de acordo com o dirigente.

Os demais fechamentos se estendem por Mato Grosso do Sul e Minas Gerais (com duas lojas cada), além de Paraíba, Alagoas, Bahia. Maranhão e Ceará - lojas adquiridos da rede Bom Preço.

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O cenário econômico adverso, a dificuldade na integração tecnológica após a aquisição e os custos elevados de operação não permitiram que o slogan “preço baixo todo dia” se tornasse realidade nessas lojas, segundo afirma Patah.

“Ficou difícil, e a rede diz ter sido obrigada a diminuir 5% das lojas deficitárias.”

Na metade do ano, Guilherme Loureiro, presidente do Walmart, disse em um evento de varejo que, para adequar as operações ao atual cenário de crise e ganhar mais eficiência nos processos, a rede daria prioridade à abertura das lojas de vizinhança com a bandeira Todo Dia.

A estratégia de acompanhar as mudanças de comportamento do consumidor, com o orçamento mais apertado e procurando gastar menos, levariam a rede a investir em pelo menos cinco lojas nesse formato em 2015, segundo o executivo.

No comunicado sobre as demissões, porém, o Walmart informou que foram abertas apenas duas, mas disse também que a empresa “continuará a focar na expansão desse tipo de loja.”

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Olhando mais de perto, todas essas medidas nada mais são do que um reflexo da crise, que se intensificou em 2015 e passou a afetar indicadores de emprego e renda.

Ambos caíram 7,5% e 12,2% em novembro passado, de acordo com levantamento do IBGE. Naturalmente, atingiram em cheio as vendas do comércio, que fecharam o ano com queda média de 8%, como apurou o Balanço de Vendas de dezembro da Associação Comercial de São Paulo (ACSP).

Em um ano de aguda recessão, que deve fechar com PIB negativo em torno de 4%, não há como o comércio ficar imune. É o que afirma Joelson Sampaio, professor de microeconomia da Fecap (Fundação Escola de Comércio Armando Álvares Penteado).  

Segundo ele, se as pessoas compram menos, em consequência o comércio vende menos e para de acumular estoques. “Como as empresas não veem expectativas de melhora no curto e médio prazo, a solução mais fácil - apesar de não ser a ideal – é demitir”, afirma.  

FUTURO INCERTO

O Walmart é só mais um dos grandes varejistas que dispensaram funcionários por conta do cenário, que levou à demissão em massa de quase 7 mil trabalhadores ao longo do ano.

Principalmente em supermercados, que também fecharam a ano no vermelho (-1,6%). Já as concessionárias de veículos demitiram mais de 25 mil funcionários em 2015.

Incluindo as rescisões esparsas, espalhadas em lojas de todos os portes, esse número, que ainda não está fechado, deve bater em 150 mil no total, afirma Patah. Em 2014, foram 122,8 mil.

Em um protesto bem humorado, os comerciários desfilaram sua indignação vestidos de Papai Noel em plena 25 de Março, no início de dezembro. O mote: “saco cheio”. Não de presentes, mas do crescente desemprego.

Até as tradicionais contratações temporárias de fim de ano foram afetadas. Mesmo com a menor alta positiva no saldo de empregos do comércio em novembro do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), do Ministério do Trabalho e Emprego desde 2001 (0,57), pela primeira vez houve queda nesse tipo de contratação para o Natal 2015.

E em um número bastante expressivo: 35% ante 2014, de acordo com o Sindeprestem (Sindicato das Empresas de Prestação de Serviços a Terceiros e de Trabalho Temporário do Estado de São Paulo).

TODO DIA, DO WAL MART: LOJA DE VIZINHANÇA, CUSTOS REDUZIDOS/FOTO: DIVULGAÇÃO

O Balanço de Vendas da ACSP confirmou isso: o Natal desse ano foi o menor em vendas desde o Plano Real, com queda de 14,5%.

Até as efetivações após o término do contrato devem recuar da média histórica, de 20% a 23%, para algo entre 10% e 15%, segundo projeções da Confederação Nacional do Comércio (CNC).

E a expectativa é que o desemprego se aprofunde em 2016: segundo Ricardo Patah, mesmo com a rotatividade elevada do varejo, em torno de 65%, até 2014 os comerciários saíam do emprego mas encontravam outro rapidamente.

“Em 2015, porém, os postos de trabalho foram diminuindo cada vez mais. Por isso acredito que vai haver aumento do desemprego já a partir do primeiro trimestre”, lamenta.  

Sampaio, da Fecap, compartilha dessa opinião. Se anualmente são esperadas as demissões sazonais por conta das contratações temporárias, nesse início de 2016 deverão entrar no pacote também os efetivos. “Isso mostra o quanto a situação está crítica.”

SEM MÁGICA

Aparentemente, nem tudo está perdido –pelo menos para os funcionários do Walmart. Segundo Patah, os funcionários das 30 lojas no alvo das dispenas que quiserem ficar na rede serão realocados em outras lojas.

“Mas que não quiser, será encaminhado para outras atividades no mercado de trabalho a partir do próximo dia 15.”  

A nota do Walmart confirma. Nela, a rede americana afirma oferecer “a possibilidade de transferência para todos os funcionários que têm interesse em continuar trabalhando em outras lojas da rede.” Ou, em caso contrário, apoio à recolocação profissional.

Mas e a perspectiva para o mercado de trabalho nos próximos meses? Emílio Alfieri, economista da ACSP, diz que, mesmo com os indicadores negativos do Natal e o aprofundamento do desemprego nesse início de 2016, a expectativa é de melhora a partir do segundo semestre.

“Esse movimento na economia já ocorreu antes: por simetria, a primeiro trimestre vai ser de aprofundamento e 'fundo do poço'. Mas após datas como Páscoa, Dia das Mães e Dia dos Namorados espera-se a redução dessas perdas.”

Outra expectativa, segundo ele, é que a inflação reverta o cenário de alta e termine 2016 em torno de 7%. Tarifas como energia elétrica e combustível já foram reajustadas, e o câmbio não deve subir muito mais que os atuais R$ 4 para impactar mais os preços.

“É algo realista: se a inflação convergir para esse patamar, é um sinal de que estamos no caminho certo”, diz, lembrando que o lojista deve manter o olho no caixa e usar todo tipo de marketing ao longo do ano para estimular um consumidor pessimista e inseguro no emprego a comprar.

Mas, não dá para tirar “coelhos da cartola”, conforme diz Alfieri: mesmo com uma possível melhora no cenário a partir de março, esse ano o desemprego deve chegar a 10%.

“Um ano de ajuste (econômico e fiscal) não foi suficiente, e não dá para passar do campo negativo para o positivo num passe de mágica. A melhora só deve vir mesmo a partir de 2017”, finaliza.

Foto de abertura: Fábio Mendes/Sindicato dos Comerciários de São Paulo