São Paulo, 11 de Dezembro de 2016

/ Economia

Contra a inflação, Selic sobe para 13,75%
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Banco Central mantém a fórmula de subir os juros para domar a inflação. Mas isso agravará e prolongará a recessão que está a caminho, alerta Alencar Burti, presidente da ACSP e da Facesp

Sem sinais de trégua da inflação, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central elevou a taxa básica de juros da economia em 0,50 ponto percentual (p.p.) na reunião desta quarta-feira (03/06). Ao atingir 13,75% ao ano, a taxa Selic voltou aos patamares de dezembro de 2008, só que desta vez depois de seis altas consecutivas. 

Alencar Burti, presidente da Associação Comercial de São Paulo (ACSP) e da Federação das Associações Comerciais do Estado de São Paulo (Facesp), lamenta a decisão sobre a taxa básica de juros. 

"Nosso entendimento é que o Banco Central deveria ter mantido a taxa inalterada. Consideramos importante reverter as expectativas inflacionárias, mas seria prudente o BC fazer uma parada na política de elevação da taxa Selic, uma vez que o efeito dos aumentos anteriores ainda vai se fazer sentir mais fortemente na economia. Além disso, a demanda dos consumidores já apresenta queda acentuada”, afirma.  
 
Segundo Burti, todos os indicadores de atividade têm mostrado forte desaceleração, sinalizando que a economia caminha para uma recessão, que irá se agravar e será mais prolongada se houver novo aumento da taxa. 

"Mais do que afetar o consumo - que já está bastante fraco -, os juros elevados têm provocado redução dos investimentos, queda da produção industrial e desarticulação de setores produtivos”, diz o presidente da ACSP e da Facesp.
 
O comunicado do Copom foi claro: "Avaliando o cenário macroeconômico e as perspectivas para a inflação, o Copom decidiu, por unanimidade, elevar a taxa Selic em 0,50 p.p., para 13,75% a.a., sem viés". A frase é idêntica à divulgada no comunicado após a reunião dia 29 de abril, que também elevou a taxa Selic. 

Segundo Emílio Alfieri, economista da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), ao não incluir a expressão "neste momento" no comunicado, é possível interpretar que o Copom ainda não terminou o ciclo de aumento nos juros. Ao repetir a mesma frase, deixa claro que não sabe quando vai parar de aumentar os juros e que o objetivo é controlar a inflação.
 
A elevação de 0,50 p.p. veio em linha com o que o mercado esperava e alinhado com a promessa do Banco Central de fazer a inflação começar a convergir para a meta a partir do ano que vem, de forma gradual. Isso porque a inflação oficial medida pelo IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) segue muito acima do intervalo máximo de tolerância de 6,5%. 

Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o IPCA ficou em 8,17% nos 12 meses acumulados até abril. O próprio Banco Central admitiu que a inflação encerrará este ano acima do teto da meta. 

O fato é que o aumento de juros mostra-se como uma terapia dolorosa, porém necessária para a economia. Ao manter o ritmo de alta, o copom transmite aos agentes da economia, de empresários a investidores e consumidores, que está empenhado a corrigir a rota ascendente da inflação. 

"A principal ferramenta que o Banco Central tem é a taxa de juros - que surte efeito de longo prazo. A decisão ajuda as expectativas para o futuro. É o fato de o empresário saber que, no longo prazo, os preços vão se comportar de determinada forma e, assim, poder tomar decisões a respeito de preços e de investimentos", diz Eric Brasil, professor de economia da Fecap (Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado).  

JUROS NÃO DOMAM INFLAÇÃO

O fato é que os juros funcionam como uma terapia e, assim, devem demorar a surtir efeito sobre a inflação. Normalmente, a ideia de subir os juros é retirar dinheiro de circulação da economia, inibindo crédito e consumo, e, por consequência, a alta de preços. 

Mas desta vez é diferente. A inflação está alta não porque mais pessoas estão consumindo, mas porque os preços administrados (energia, água, transportes) passam por correção depois de artificialmente terem sido congelados no ano passado. 

Os economistas referem-se a ela como uma inflação de custos, sobre a qual há pouco impacto dos juros e da relação entre oferta e demanda - efeito que faz os preços flutuarem tradicionalmente.

Sinais claros de que a inflação não sobe por efeito e demanda estão nos indicadores de produção da indústria, vendas do comércio, e por que não, na evolução do próprio PIB (Produto Interno Bruto, a soma de bens e serviços produzidos pelo país) e das taxas de desemprego e massa salarial. 

A produção da indústria, por exemplo, caiu 7,6% em abril deste ano na comparação com igual mês de 2014. As vendas do comércio seguem essa toada. Em um mês de data comemorativa importante, como o dia das Mães, as vendas caíram 5,8% em comparação com maio de 2014, com uma queda mais acentuada nas vendas a vista, de 6,6%. 

O resultado do PIB do trimestre também foi fraco, com recuo de 1,6% na comparação com o primeiro trimestre do ano passado. 
Os números negativos estão batendo no emprego e na renda. Nesta quarta-feira (03/06) o IBGE divulgou que a taxa de desemprego chegou aos 8% no trimestre até abril ante igual período de 2014. Assim, a renda média real do trabalhador encolheu 0,4%, ainda na mesma base de comparação. 

Otto Nogami, professor do MBA Executivo do Insper, diz que, do ponto de vista da redução do consumo a taxa de juros já estava no limite antes desse aumento. "A taxa chegou no teto para reduzir a demanda. Acredito que esse aumento tem mais relação com o fato de que o governo precisa atrair capital especulativo estrangeiro, para que o real não se desvalorize ainda mais", diz.

O professor lembra que há uma deterioração nas contas externas, com déficit na balança comercial. Assim, em momentos de turbulência, as multinacionais antecipam a remessa de lucros para o exterior por causa da expectativa de que o dólar vai subir, conforme as contas externas se deterioram. Utilizando esse mecanismo, o governo acaba valorizando o real sem pressionar os preços internos.  

"Acredito que esse seja o ponto para o qual o governo está olhando, porque a demanda, o consumo e a produção já caíram bastante. Os juros minimizariam, assim, um desequilíbrio nas contas externas enquanto medidas necessárias não forem feitas para ajustar a economia. Mas admito que é uma medida que mostra a fragilidade da economia", afirma. 

REAÇÕES

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) considera que o aumento dos juros básicos da economia para 13,75% ao ano dificultará a recuperação da economia brasileira.

"Os juros altos penalizam a atividade produtiva, porque encarecem o capital de giro das empresas, inibem os investimentos e desestimulam o consumo das famílias, contribuindo para agravar ainda mais o quadro de retração da atividade industrial", cita a confederação, em nota. Para a CNI, o Banco Central deveria considerar a forte desaceleração da economia, a queda no emprego e os efeitos do ajuste fiscal nas políticas de controle à inflação.

"A indústria destaca que o esforço fiscal do governo é importante para a recuperação da confiança dos empresários e para diminuir a necessidade de novos aumentos dos juros. A combinação das políticas fiscal e monetária aliviaria o custo do ajuste para as empresas e os consumidores e permitiria a retomada gradual da produção", argumenta a CNI.

Em nota distribuída à imprensa, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) também criticou a decisão anunciada do Copom de elevar a Selic. "O que o governo conseguiu até agora foi virar a indústria de ponta-cabeça", disse o presidente da entidade, Paulo Skaf.

A nota salienta que no primeiro trimestre o Produto Interno Bruto (PIB) já encolheu e que é consenso no mercado que o segundo também será de retração, o que caracterizaria tecnicamente a recessão no País.

"O governo brasileiro não precisa mais subir os juros, muito menos aumentar impostos. Precisa, sim, promover forte diminuição de gastos para atingir o equilíbrio fiscal e retomar o crescimento da produção e do emprego", disse Skaf.

Foto: Thinkstock



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