Economia

Com todo seu petróleo, Venezuela está sem gasolina. É o socialismo


Regime bolivariano refina menos combustível que consome e se volta à importação, que é precária pela falta de divisas estrangeiras


  Por João Batista Natali 29 de Março de 2017 às 13:00

  | Editor contribuinte natali@uol.com.br


A Venezuela possui as maiores reservas de petróleo do Planeta, encabeçando uma lista que traz em seguida a Arábia Saudita, o Canadá e o Irã.

Mesmo assim, a produção e a distribuição de combustíveis entraram em colapso. Desde terça-feira passada (21/03), filas se formam diante dos postos de gasolina em Caracas e nas principais cidades venezuelanas.

É algo inimaginável, que lembra a afirmação atribuída a Milton Friedman ou a outro economista, William Buckley, de que, se o socialismo for instituído no deserto do Saara, em poucas semanas começará a faltar areia.

Em termos de produção de petróleo, a Venezuela ocupa a nona colocação mundial. Tem óleo cru e combustível refinado para, teoricamente, jamais correr o risco de não ter oferta para sua demanda.

Mas estamos falando do “socialismo do século 21”, essa mistificação instituída por Hugo Chávez (1999-2013) e prosseguida com a mesma incompetência por Nicolas Maduro.

A situação venezuelana é hoje tão caótica que Maduro pediu há dias às Nações Unidas ajuda logística para arrumar o setor de medicamentos, que também entrou em colapso, com menos de 20% dos produtos nas farmácias.

Não acaba aí. A Venezuela é o país em que, por falta de farinha de trigo importada, não há mais pão em parte das padarias de Caracas, e onde o governo prendeu padeiros, acusando-os de participar da “guerra econômica” contra o establishment bolivariano.

Ou, como último exemplo, nos jardins zoológicos venezuelanos 50 mamíferos de maior porte deixaram de ser alimentados e morreram de inanição, algo que havia apenas ocorrido, na recente história da humanidade, em Berlim, e nas últimas semanas do regime nazista.

Mas vejamos a gasolina. Uma das provas de que o governo foi pego de calças curtas – ou seja, não tem o mínimo planejamento do qual tanto se orgulha – está na revelação da agência Reuters de que, ainda em fevereiro, o próprio Maduro autorizou o envio de petróleo refinado para Cuba e Nicarágua, dois de seus últimos regimes amigos.

INCOMPETÊNCIA DE GESTÃO, MAS POR ETAPAS

Desde então, o mercado da gasolina – leia-se, um setor controlado pela estatal PDVSA – entrou em parafuso e nada indica que a questão será satisfatoriamente resolvida a curto prazo.

A incompetência de um regime centralizador se manifestou em algumas etapas. Em primeiro lugar, as grandes refinarias estão com a produção comprometida.

O país costumava há cinco anos refinar 1,3 milhões de barris por dia. Hoje está refinando menos de 400 mil.

E não é um problema técnico, que já faz parte do histórico do óleo cru venezuelano, que é um produto “pesado” (menos querosene e mais asfalto), contrariamente ao petróleo “leve” (arabian light, brent) da região do Golfo.

O problema está na má gestão. E quem afirma isso é Ivan Freites, dirigente da Federação Unitária dos Petroleiros, em entrevista ao portal de oposição Tal Cual.

A maior refinaria do país, a de Paraguaná, está com 67 de suas 82 torres de refinamento desativadas por falta de manutenção. A refinaria de Puerto la Cruz e a de El Palito deixaram de funcionar.

Numa delas, explodiu uma caldeira para a produção de vapor (não há dinheiro para substituí-la) e na outra houve imperícia na desmontagem de torres que forneceriam peças de reposição.

Na semana passada, chegaram à Venezuela 600 mil barris de gasolina. Era um produto importado sobretudo do Brasil, Estados Unidos e Espanha, mas como a necessidade do mercado interno venezuelano é de 250 mil barris por dia, o produto praticamente já se esgotou.

O governo então lançou mão daquilo que equivaleria, literalmente nos reservatórios, ao fundo do tacho. Ou seja, o combustível armazenado a menos de um metro do piso de cada reservatório, junto ao qual se acumulam impurezas.

As quais, como é de se prever, passaram a entupir os motores dos automóveis e veículos de transportes. Dezenas de ônibus entraram em pane e deixaram os passageiros na mão.

A rigor, a estatal PDVSA teria pessoal competente para dar conta da situação. Mas os engenheiros foram substituídos por militantes do partido do governo, o PSUV, numa operação de maior efeito em abril de 2012.

O aparelhamento da estatal não era apenas para dar bons empregos aos fieis ao regime. Era também para impedir de uma vez por todas que a estatal funcionasse com a lógica de uma empresa, e canalizasse seus recursos para o financiamento dos programas sociais.

Isso funcionou no período de vacas gordas. Com as vacas magras –queda pela metade do preço internacional do petróleo, em 2014 – a mesma lógica caducou.

E isso num quadro agravado pela inflação de 546% (estimativa de 2016), pela crise cambial que impede a importação de matérias primas e leva ao fechamento de fábricas, comércio e prestadores de serviços, e pela neutralização das vantagens sociais dos primeiros anos do chavismo. Algumas estimativas apontam que para 80% da população caiu na pobreza.

O GRANDE NÓ DA QUESTÃO POLÍTICA

Com tantos diagnósticos negativos, qual seria a saída política para o imbróglio venezuelano? Caso se tratasse de uma democracia plena, a oposição estaria às vésperas de chegar ao poder.

Mas não está. Pouco mais de uma centena de dirigentes da oposição está presa. Até outubro de 2016, a oposição se mobilizou para tirar Maduro do poder por meio de um “referendo revogatório”, previsto na Constituição.

Mas a Comissão Nacional Eleitoral, controlada pelos bolivarianos, anulou os abaixo-assinados e inviabilizou a aplicação da lei.

Ao mesmo tempo, a Assembleia unicameral, onde os oposicionistas detêm dois terços das cadeiras, não conseguiu publicar nenhuma lei desde dezembro de 2015, por determinação do Superior Tribunal de Justiça.

Nele, aos 11 ministros do final da década de 90, Chávez nomeou 22 outros. O governo passou a ter maioria no desacreditado Judiciário.

Restaria a pressão externa. O Vaticano bem que tentou mediar o diálogo de Maduro com a oposição. Mas a operação naufragou em janeiro, em meio a declarações ofensivas de Maduro ao núncio apostólico.

Afastada do Mercosul, em manobra operada pelo Brasil e pela Argentina, a Venezuela também pode perder seu lugar na OEA (Organização dos Estados Americanos), que pressiona o governo a convocar eleições.

Em dezembro de 2016 deveriam ter sido eleitos governadores e prefeitos. Mas o órgão eleitoral, em obediência ao Palácio de Miraflores (Presidência) disse que o cumprimento da agenda seria impossível, sem que os partidos políticos se recadastrassem – com assinaturas, cada um, de 0,5% dos eleitores.

O único partido que não precisou cumprir essa “formalidade” foi o PSUV, que é o partido do governo.

Um editorialista do El Universal, um dos poucos jornais da oposição –e que por isso nem sempre recebe papel para a impressão de suas edições –constatou que o represamento de eleições oficiais se traduziu pelo represamento de eleições em sindicatos e até da associação dos professores universitários.

Os bolivarianos não querem que se vote, para que não transpareça a miserável condição minoritária em que se encontra hoje o governo.

Digamos, para resumir: é uma quase ditadura. Uma ditadura no pais com as maiores reservas mundiais de petróleo. E onde falta gasolina.

FOTO: Luiz Raatz/Estadão Conteúdo