São Paulo, 24 de Fevereiro de 2017

/ Economia

Aperto fiscal e infraestrutura dividem a conta do baixo crescimento
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Projeções diminuem para o crescimento da economia e aumentam para a inflação este ano. A probabilidade de racionamento entra nos cálculos

A expectativa para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB, a soma do conjunto de bens e serviços produzidos no país) em 2015 foi reduzida por economistas do Brasil, no caso da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) e do exterior, pelo FMI (Fundo Monetário Internacional).

Em direção oposta a do crescimento, sobem as projeções da Anbima para a inflação, como resultado do ajuste fiscal em curso pelo governo, uma combinação de juros altos, redução de gastos públicos e aumento de impostos. Para os juros, economistas da entidade mantiveram a projeção de aumento de 0,50 ponto percentual na reunião de amanhã, e de que a taxa se mantenha estável em 12,50% até o fim deste ano.

O ajuste em curso pelo governo é um movimento visto de forma positiva pelos economistas da Anbima, mas que só surtirá efeito no crescimento da economia e na redução da inflação em 2016.

Por enquanto, a avaliação deles é a de que o crescimento do PIB será afetado por esta combinação junto com outro fator que entrou no cálculo: a probabilidade de racionamento de água e de energia, evento capaz de trazer esse número para baixo.

 A pesquisa da Anbima mostra que a expectativa para o crescimento do PIB de 2015 caiu de 0,60% na reunião com 25 economistas em novembro para 0,20% no encontro realizado neste mês. Para 2016, a estimativa é de crescimento de 1,50%.

Para efeito de comparação, a pesquisa Focus, realizada semanalmente pelo Banco Central, também mostra queda na expectativa de crescimento do PIB para 2015, que passou de 0,55% para 0,38% em um intervalo de um mês. Para 2016, a projeção continuou sendo de 1,80%.

“A cada nova reunião revisamos esse número para baixo e não me surpreende que, na próxima, ele seja reduzido. Primeiro, por causa do aperto da política econômica. Depois, por causa da probabilidade de racionamento de energia elétrica e de água, que parece crescente. Além disso, as possíveis implicações da operação Lava Jato na economia, no investimento de forma geral e no ambiente de negócios”, afirma Marcelo Carvalho, presidente do Comitê de Acompanhamento Macroeconômico da Anbima.

O tema do racionamento, explica Carvalho, ocupou boa parte da reunião com economistas. Eles discutem qual seria a probabilidade, a intensidade e duração de um evento como esse. 

“Há muitas estimativas, e não tenho números precisos. O que sabemos é que o impacto é maior no caso da energia. Um racionamento de água teria um impacto abaixo de 1% do PIB. Em casos extremos, um racionamento de energia traria um impacto de mais de 1% do PIB”, diz. 

Por outro lado, o relatório divulgado hoje pelo FMI (Fundo Monetário Internacional) estima um crescimento de 0,3% para o PIB do Brasil neste ano, bem abaixo do percentual de 1,4% projetado em outubro, quando o FMI fez sua reunião anual em Washington.  Para 2016, a expectativa passou de 2,2% para 1,5%.

Em 2014, a projeção é que a economia brasileira cresceu apenas 0,1%, o menor nível entre os países emergentes que fazem parte do relatório.

Apesar de não trazer um comentário específico sobre o Brasil, Christine Lagarde, diretora-gerente do FMI, disse na semana passada, em Nova York, que o Brasil precisa investir em transporte e energia para evitar gargalos na infraestrutura, o que seria um dos fatores para o baixo crescimento. 

Desde 2012, o FMI vem cortando as previsões de crescimento da economia brasileira a cada novo relatório. 

Além dos problemas em infraestrutura, o Fundo vem citando a queda da confiança de empresários e consumidores no País, que desestimula o investimento e o consumo, além do impacto negativo da redução dos preços das commodities nas exportações brasileiras.

INFLAÇÃO ACIMA DO TETO EM 2015

A pesquisa de Cenários para a Economia, da Anbima, traz uma projeção de 6,82% para a inflação oficial de 2015, medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).

No levantamento de novembro, a expectativa já era alta, de 6,61%, acima do teto da meta do governo (o limite tolerado de 6,50%). Carvalho, da Anbima, diz que este percentual tem sido revisado para cima a cada nova reunião por causa da pressão dos preços administrados. 

Para se ter uma ideia, a expectativa é que os preços administrados subam 8,60% neste ano. Exemplos são as tarifas de energia elétrica e transportes. Esses preços têm participação de 22,90% na composição do IPCA, peso importante para pressionar o índice. 

“Neste ano, todos reconhecem que o ajuste nos preços trará impacto relevante, mas os apertos monetário (nos juros) e fiscal (nos gastos e impostos) vão trazer a inflação para baixo em 2016”, afirma Carvalho. 

Ele diz que as recentes medidas de aumento de impostos, anunciadas ontem, mostram que o governo está em uma direção clara. Ele explica que o consenso entre os economistas é que o governo conseguirá cumprir a meta de superávit primário (economia do governo para pagar a dívida pública), estipulada em 1,2% do PIB. 

“Para cumprir a meta, será preciso reduzir gastos e aumentar impostos e o time de Joaquim Levy tem credibilidade. A percepção sobre o ministro é de que ele promete pouco e cumpre muito. Isso trará de volta a confiança e melhora da atividade ao longo do tempo”, afirma. 

As projeções de economistas para a taxa básica de juros Selic manteve-se em 12,50% para 2015. Para a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), que termina amanhã, a estimativa é de aumento de 0,50 ponto percentual, trazendo a taxa para 12,25% em uma só tacada. 

“Os economistas estimam que o juro fique em 12,50%, ou seja, que depois de aumentos fique estacionado até o fim de 2015. Essa é uma mediana, já que há economistas que acreditam que pode chegar a 13% e outros, que pode voltar a 11% neste ano. O consenso é que voltará a baixar, depois de subir, para estimular a economia”, diz. 

 

* Com informações de Estadão Conteúdo



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