São Paulo, 07 de Dezembro de 2016

/ Economia

Ajustes continuarão a sufocar oferta de crédito
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Economia fraca e juros altos levaram a uma elevação moderada do crédito, tendência que persiste em 2015, com mais ajustes, como a elevação de impostos

O ritmo fraco de crescimento da economia, a inflação resistente que resulta em uma taxa de juros alta e a baixa confiança de empresas e consumidores já afetaram o crescimento das operações de crédito. 

No ano passado, o estoque total de financiamentos cresceu 11,3% e atingiu R$ 3,021 trilhões. Em 2014, o crescimento havia sido maior, de 14,7% sobre 2013. “Os ajustes na economia para combater a inflação começaram após as eleições e já produziram efeitos no crédito no ano passado”, afirma Emílio Alfieri, economista da Associação Comercial de São Paulo (ACSP). 

Para o economista, os ajustes ainda vão influenciar o desempenho das operações de crédito neste ano. Ele estima que o crescimento pode ficar próximo ao patamar de 2014 ou menor, caso a economia entre em recessão.

Ao avaliar o saldo (total de operações concedidas e novas concessões) do crédito ao setor privado, o economista diz que as menores taxas de crescimento foram as do comércio, de 5,1%, e do setor de serviços, com alta de 5,9% no ano. 

“Se deflacionarmos o crescimento do saldo de crédito para o comércio pela inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que foi de 6,41% em 2014, houve uma queda real de 1,2% no ano passado”, afirma. Desta forma, o saldo de crédito do setor de serviços também teve queda real (descontada a inflação).

O saldo de crédito para a indústria cresceu 6,9% no ano passado sobre 2013, enquanto o crédito rural subiu 18,2% e o imobiliário, 27,1%. 

Os dados do Banco Central (BC) mostram que a evolução do saldo foi maior para consumidores, com alta de 13%, do que para empresas, para as quais houve um incremento de 9,8% na comparação anual com 2013. 

A somatória de operações realizadas com recursos livres, ou seja, captados por instituições financeiras, cresceu 4,7% no ano passado. Já o saldo de financiamentos com crédito direcionado, que é o recurso subsidiado pelo governo, subiu 19,6% em 2014. 

Segundo o BC, o total de operações de crédito em relação ao PIB (Produto Interno Bruto, a soma de bens e serviços produzidos pela economia) passou de 56% em 2013 para 58,9% em dezembro de 2014. 

Tulio Maciel, chefe do Departamento Econômico do Banco Central, avaliou que a tendência do crédito tem sido de moderação do crescimento. Segundo ele, dezembro é um mês sazonalmente mais forte, mas ele observou que a alta mensal de 2% no crédito total em dezembro foi menor do que o registrado no mesmo mês de 2013. 

Segundo Maciel, esse movimento de moderação também é influenciado, entre outros fatores, pelo crédito imobiliário, que na visão dele, "cresce a um ritmo relevante, mas mostra moderação a cada mês". Ainda assim, ele diz que a tendência do crédito imobiliário é de crescimento maior do que o das demais linhas.

Ele relatou ainda que nesse movimento de redução do ritmo, houve moderação do crédito rural no último mês de 2014. 
Maciel explicou que esse movimento, no entanto, tem efeito estatístico. O saldo das operações para essa modalidade havia se expandido mais fortemente em 2013 e o mesmo efeito não se viu no ano passado. 

Maciel ponderou que no caso de capital de giro, que também mostrou um ritmo menor de avanço, reflete a atividade econômica menor em 2014 frente a 2013. "A tendência do crédito tem sido de moderação do crescimento", reforçou em coletiva de imprensa.

Nicola Tingas, economista-chefe da Acrefi (Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento), lembra que este ano será de crescimento “flat” (ou próximo de zero) para a economia, como disse o ministro da Fazenda Joaquim Levy. 

“Será um ano de ajustes que acabam contraindo o crédito no primeiro momento. O controle da inflação é necessário e quanto antes for feito, mais rápida será a retomada do crescimento. Se a sinalização de que os ajustes estão sendo feitos na direção correta e aumentar a confiança, as novas concessões podem voltar a ser estimuladas”, diz. 

Tingas diz que ainda é cedo para fazer projeções para este ano, pois o momento atual representa uma fase um dos ajustes na economia. Dependendo do grau de sucesso dessa fase, pode haver uma mudança de rumo no segundo semestre, inclusive para o crédito. “Dependerá de investimentos e concessões. É possível criar fatores positivos para o crédito no meio do caminho”, afirma. 

CRÉDITO NOVO PARA EMPRESAS DIMINUI

Quando se observa as novas concessões, ou seja, as operações contratadas e liberadas em 2014, é possível verificar que houve um arrefecimento no crédito às empresas, como explica Alfieri.

“A concessão refere-se o valor do principal emprestado, sem a incidência de juros, que diminuiu para as empresas no ano passado, por causa da alta de juros e da economia estagnada”, afirma. O crescimento total de concessões foi de 5,3% em 2014. 

As concessões para empresas somaram R$ 179,6 bilhões em 2014, uma queda de 0,3% sobre dezembro de 2013, quando esse montante foi de R$ 186,3 bilhões. 

Para os consumidores, as novas concessões foram de R$ 190,3 bilhões, valor 11,1% superior ao ano anterior. 

Alfieri, da ACSP, diz que os empresários, especialmente os de menor porte, devem ser conservadores neste ano e evitar ficar com estoque alto de produtos. “É comprar menos se vender menos”, diz. 

Tingas, da Acrefi, reforça a recomendação. “O ano é de ajustes no orçamento para todos: governo, empresas e consumidores”, completa. 

As taxas de juros do crédito para empresas subiram 0,8% no ano passado, se consideradas as operações com recursos livres e direcionados. As linhas que tiveram maior incremento, daquelas que usam recursos livres (captados por bancos), foram o cheque especial, cuja taxa média passou de 148,1% ao ano em dezembro de 2013 para 187% ao ano no mesmo mês de 2014.

Os juros médios da conta garantida subiram de 37,2% ao ano em 2013 para 40,9% ao ano no ano passado. 
Para o desconto de duplicatas, a taxa média passou de 27,3% ao ano para 30,5% ao ano no mesmo intervalo. Para a antecipação de faturas de cartão, os juros médios subiram de 27,2% ao ano em dezembro de 2013 para 29,8% ao ano no mesmo mês de 2014.

CONSUMIDORES: DEMANDA MENOR

Para os consumidores, o juro médio do crédito com recursos livres ficou em 43,4% ao ano em dezembro, ante 38% ao ano no mesmo mês de 2013. 

No crédito com esses recursos, a maior alta ocorreu na taxa de juros do cheque especial, que passou de 147,9% ao ano em dezembro de 2013 para 200,6% ao ano no mesmo mês de 2014. 

Com isso, o patamar de juros cobrados nesse tipo de empréstimo é o maior desde fevereiro de 1999, quando era de 204,34% ao ano. 

Pesquisa da Boa Vista SCPC (Serviço Central de Proteção ao Crédito) mostra que o consumidor está demandando menos crédito. A procura caiu 7,8% no ano passado na comparação com 2013, a maior queda desde dezembro de 2011. 

A procura por crédito caiu mais nos bancos, com redução de 8,3%. A busca de crédito pelo consumidor no varejo recuou 7,6%. 
Fernando Cosenza, diretor da Boa Vista SCPC, diz que a redução da demanda está relacionada ao cenário de aperto nos juros e pela desistência do consumidor que ouviu um “não” dos credores. “Quando fica difícil conseguir, muitos consumidores desistem”, avalia. 

O endurecimento na concessão de crédito pelos credores é um movimento que começou no final de 2013, quando as instituições passaram a controlar mais de perto os níveis de inadimplência. 

Ele diz que o consumidor também está com a confiança mais baixa neste cenário, o que explica a queda na procura por crédito. “A perspectiva é de manutenção da tendência de queda na demanda porque os juros vão continuar subindo e houve aumento de impostos”, diz. 

*Com informações de Estadão Conteúdo



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