São Paulo, 04 de Dezembro de 2016

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A economia em 2015: um cenário nebuloso e de baixas expectativas
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O Diário do Comércio convidou economistas de três consultorias e duas instituições a formular projeções para 2015. Para eles, o momento é de cautela

O grau de confiança na economia  é um elemento fundamental para projetar o desempenho futuro. Se o consumidor acredita que há chance de crescimento e que seu emprego está seguro, tende a gastar mais. Da mesma forma, o empresário se sente seguro para se envolver com empréstimos e financiamentos, desengavetar projetos e assim elevar os níveis de produção e de emprego.

No momento, nem os consumidores nem os empresários acreditam que a política econômica está voltada para o crescimento do país. Tanto é assim que cerca de 70% dos brasileiros planejam reduzir seus gastos nos próximos 12 meses --o maior índice desde 2010, de acordo com pesquisa anual conduzida pela Boston Consulting Group (BCG).

O índice de confiança dos empresários também é um dos mais baixos da história, segundo levantamento da CNI (Confederação Nacional da Indústria). Agora em dezembro, bateu em 45,2 pontos ante a média histórica de 57 pontos. Quanto mais próxima de 100, maior a confiança do empresário na economia e nos negócios.

“A credibilidade do governo está muito baixa”, diz Nathan Blanche, sócio da consultoria Tendências. “Falta transparência, clareza, para os agentes econômicos, do ponto de vista do consumo e dos investidores. E o que move a economia são as expectativas.”

A FecomercioSP também constatou, neste final de ano, uma situação nada animadora para o setor. Em pleno período de Natal, 50% dos lojistas estão com volume de produtos acima do desejado para o período. Com os juros atuais, manter mercadorias nas lojas pode custar quase 1% ao mês, o que pode fazer com que as lojas já comecem 2015 com o caixa apertado.

Para o economista Affonso Celso Pastore, ex-presidente do Banco Central, a retomada do crescimento e a queda da inflação só ocorrerão depois de um "extenso período de taxas de crescimento baixas ou mesmo negativas" e de alta do desemprego, conforme afirmou no jornal O Estado de S.Paulo.

Diante de um cenário de baixas expectativas como esse, que desempenho esperar da economia em 2015? O Diário do Comércio ouviu economistas de três consultorias especializadas e de duas instituições ligadas ao varejo, a ACSP (Associação Comercial de São Paulo) e a Boa Vista SCPC.

É consenso entre eles que ainda não há clareza em relação às ações que serão conduzidas pela nova equipe econômica. Some-se a isso a baixa confiança de consumidores e empresários na economia, e se concluirá que 2015 será um ano de fraca atividade econômica com menos oportunidades de expansão dos negócios.

Aos consumidores, os economistas recomendam quitar as dívidas e agir com cautela antes de se comprometer com novos financiamentos. Para os lojistas, a recomendação é não investir em estoques e ser bem mais criterioso em relação às vendas a prazo. Para os empresários em geral, a sugestão é cortar custos e calcular com precisão novos investimentos.

“É preciso ter cautela, cortar custos, comprar bem, não se endividar, controlar bem os estoques e fazer promoções na hora certa” afirma Marcelo Solimeo, economista da Associação Comercial de São Paulo (ACSP). Com crescimento baixo, acrescenta, a disputa pelo mercado não será fácil. “O empresário vai precisar acompanhar muito bem o que acontece na economia, freqüentar suas entidades, conversar com colegas do setor e reavaliar constantemente os planos.”

Ouça o podcast: Baixar ou subir preços quando a economia não cresce?

Blanche propõe aos executivos e empreendedores que sigam o princípio de São Tomé, de ver para crer. “Até lá não estoquem demais, pois do contrário enfrentarão situação semelhante à do setor automobilístico, que já começou a demitir”.

]As montadoras se tornaram o símbolo recessivo em 2014
Foto: Estadão Conteúdo

É unânime entre os entrevistados a convicção de que o PIB (Produto Interno Bruto) não crescerá mais do que 1% em 2015. Esse é o percentual projetado pela ACSP e pelas consultorias LCA e GO Associados.  A Boa Vista SCPC e a Tendências são mais pessimistas, ao prever 0,7% e 0,6%, respectivamente.

Quanto à inflação, certamente um dos pontos de maior preocupação do governo em 2015, quase não há quase divergência entre os economistas. Segundo afirmam, a taxa deverá se manter entre 6,3% e 6,5%.

Já a taxa de juros básica da economia, a Selic, atualmente em 11,75%, pode subir até 13% em 2015. E um dos setores que deverá obter o melhor desempenho, conforme avaliam os economistas, é o varejo. A previsão mais otimista, formulada pela LCA, contempla um crescimento de 3,1%. Não se trata, porém, de um placar digno de comemoração.

"As famílias estão mais endividadas e a questão do emprego preocupa"

Com os números previstos para 2015, não dá para esperar que o Brasil volte a dar novo gás a setores que estão hoje praticamente paralisados, como o têxtil, que sofre forte concorrência internacional.

 Um dos principais desafios do país, juntamente com a necessidade de cortar gastos do governo, será conter a alta de preços. Nos 12 meses que antecedem novembro, o IPCA acumulou 6,56% --o que deve projetar para o ano de 2014 uma inflação de 6,3%. Para Fábio Silveira, sócio-diretor da GO Associados, segurar a inflação não deverá ser nada fácil para a nova equipe econômica.

Isso porque 2015 começa com forte pressão de alta de preços de energia elétrica, aluguel de móveis residenciais, carnes, gasolina, óleo diesel, serviços de saúde, cereais e grãos. “Cereais e grãos continuarão subindo ao longo do ano por conta da desvalorização cambial”, afirma Silveira.

Solimeo, da ACSP, afirma que a maior pressão sobre os preços será concentrada no primeiro semestre, por conta dos reajustes de energia elétrica, até porque os preços de algumas commodities tendem a cair ao longo do ano, contribuindo para manter a taxa de inflação ao redor de 6,5%, em média. “Acredito que 2015 será um ano tão ruim quanto este, até porque os fatores macroeconômicos continuarão os mesmos”, afirma.

Taxas de juros em alta também não estimulam nem consumo nem produção. É o que se verá em 2015. O Banco Central já sinalizou que deve continuar aumentando os juros devido à necessidade de combate à inflação. Com crédito mais caro, o consumidor tende a reduzir as compras a prazo e os empresários, a preferir injetar dinheiro no mercado financeiro em vez de investir na produção. “Tudo isso deve resultar em crescimento muito baixo da atividade econômica em 2005”, diz Flávio Calife, economista da Boa Vista SCPC.

Além do corte de gastos e do aumento dos juros, mais uma medida recessiva deverá ser colocada em prática pelo governo em 2015. A volta da CPMF (Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira), que vigorou entre 1997 e 2007. A alíquota da CPMF, fixada inicialmente em 0,25%, subiu para 0,38% em 2002.

“Essa contribuição deve voltar, mas atrelada à saúde, e com uma alíquota menor, de 0,18%”, afirma Fernando Sampaio, sócio-diretor de macroeconomia da LCA. Também pode ser resgatada a Cide (Contribuições de Intervenção no Domínio Econômico), incidente sobre a importação e a comercialização de combustíveis. “Portanto, por qualquer lado que o governo ataque, vai remar contra o crescimento da economia”, diz Sampaio.

O crédito, que chegou a ser um dos principais estimulantes de consumo no início da década passada, também se tornou mais contido. As instituições financeiras estão rigorosamente seletivas na liberação de financiamentos, até porque a inadimplência voltou a subir. E o próprio consumidor já tem mais consciente ao buscar dinheiro nos bancos. Foi-se o tempo em que só olhava o tamanho da prestação no orçamento.

“As famílias estão hoje mais endividadas e a oferta de emprego deve piorar e preocupar”, afirma Calife. Com tudo isso, o momento é de prevenção à São Tomé: observar como a nova equipe conduzirá a economia pela nova equipe, e só então, diante de resultados palpáveis, acreditar que será possível voltar a investir.

 



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