São Paulo, 20 de Julho de 2017

/ Brasil

Vitória do argentino Macri é boa para o Brasil e má para o PT
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Novo presidente, eleito no domingo, deve colocar a economia nos eixos, o que exportadores e investidores acharão excelente

A eleição de Maurício Macri neste domingo (22/11) como presidente da Argentina é uma boa e uma má notícia para o Brasil, dependendo de quem a interpreta.

Para a economia, a estabilização do país vizinho com o provável fim do racionamento de dólares é um fator altamente positivo.

Mas, dentro do Partido dos Trabalhadores, a derrota de Daniel Scioli, candidato de Cristina Kirchner, não foi o melhor resultado para a presidente Dilma Rousseff e para o ex-presidente Lula.

Brasil e Argentina têm uma pauta que se desvalorizou nos dois últimos anos, com a queda das transações bilaterais em 40%. Para isso colaboraram três conjuntos de fatores.

Em primeiro lugar, com reservas cambiais escassas, de estimados US$ 27 bilhões (menos de um décimo da brasileira), a Argentina contingenciou suas importações e prejudicou diretamente produtos brasileiros, de calçados a automóveis.

O racionamento de dólares se deve ao fato de o governo vizinho estar teoricamente inadimplente após dez anos de longas disputas com uma parte de seus credores (os chamados “fundos abutres”, por se negarem a fazer abatimento em seus créditos após o fim da grotesca paridade dólar/peso).

Em segundo lugar, a China substituiu o Brasil como maior parceiro comercial da Argentina. Buenos Aires fechou acordos comerciais com Pequim que implicavam aporte de divisas, em mecanismo com o qual o governo brasileiro não tinha condições de concorrer.

De qualquer modo, e foi o que Macri sublinhou durante sua campanha, esses acordos podem ferir o próprio Mercosul, e Cristina Kirchner deveria ter consultado o Brasil ou negociado em bloco com os chineses.

Por fim, o conteúdo fortemente ideológico de Nestor Kirchner e de sua mulher, que o sucedeu na Presidência, atemorizou empresários brasileiros que nos anos 1990 acreditavam que o Mercosul seria um espaço comum de investimentos, e por isso mesmo contavam que a integração dos dois parques industriais atingiria patamares mais ambiciosos.

BRASIL, PERO NO MUCHO

O fato é que Macri disse nesta segunda (23/11) que sua primeira viagem como presidente seria a Brasília. Mas isso não é bem uma prioridade. O jornal Clarín informa, por exemplo, que o novo presidente enviará duas missões econômicas ao exterior. Uma à China – para a obtenção de mais créditos – e outra aos Estados Unidos, para tentar desatar o nó com os “fundos abutres”.

Assim, o Brasil caiu para segundo plano.
 
Isso não impede, no entanto, que os empresários brasileiros tenham motivos para encarar com otimismo o futuro imediato da Argentina. Em sua primeira entrevista coletiva, nesta segunda, Macri afirmou que pretendia unificar o câmbio, provavelmente com uma desvalorização do peso, o que embicaria o país na direção de uma normalidade cambial.

Em declarações à Folha de S. Paulo, o veterano jornalista argentino Jorge Castro cita um outro fator. Em contas no exterior ou em seus colchões dentro de casa, os argentinos são donos de uma fortuna estimada em US$ 300 bilhões.

É uma quantia que não passa pelo sistema bancário.

Cristina Kirchner não despertava confiança para que esse dinheiro viesse à tona. Macri, agora, poderá fazê-lo.

APOSTA DO LADO PERDEDOR

Mas vejamos no delicado campo político bilateral.

Dilma recebeu a visita de Daniel Scioli, o candidato de Cristina derrotado no domingo, e se deixou fotografar ao lado dele. A foto foi utilizada pelos peronistas como material de campanha.

Quanto a Lula, na campanha do primeiro turno ele se deslocou até a Argentina e percorreu cidades do interior e participou de atos públicos em companhia de Scioli.

Isso bastaria para criar agora um clima de estranhamento com Macri. Eis que na noite de domingo o presidente eleito recebeu telefonemas de cumprimento dos mandatários do Chile, Uruguai, Paraguai e México. Dilma não ligou.

Ela deveria fazê-lo apenas nesta segunda-feira. Segundo a Agência Brasil, Dilma se reuniria com Macri pouco antes da posse (10/12), em Buenos Aires, para cumprir uma tradição que o Planalto insistiu que prevalece desde os governos Lula e Fernando Henrique Cardoso. Ou seja, o encontro teve sua importância relativizada.

O primeiro grande tema de desavenças entre Brasil e Argentina será a Venezuela, o mais recente membro do Mercosul e que o candidato vencedor no domingo disse que pediria a suspensão do bloco por infringir a cláusula democrática.

O principal dirigente da oposição venezuelana, Leopoldo López, cumpre pena de prisão, e a mulher dele, Lilian Tintori, será uma das convidadas de honra da cerimônia de posse em Buenos Aires.

O FATOR VENEZUELA

O presidente da Venezuela, Nicolas Maduro, enfrenta em 6 de dezembro a difícil renovação do Parlamento unicameral. A suspeita antecipada de uma grande fraude foi levantada pelo afastamento ou rejeição de observadores internacionais (Fundação Carter, União Europeia, Organização dos Estados Americanos) e pelo veto, à mesma função, do brasileiro Nelson Jobim, ex-presidente do Supremo e do Superior Tribunal Eleitoral.

Dilma se manteve oficialmente calada diante desse comportamento abusivo, da mesma maneira em que há meses não se posicionou quando Maduro montou, na fronteira, um grande circo que poderia terminar com a invasão da Colômbia.

Em outras palavras, com Maurício Macri o regime bolivariano criado pelo finado Hugo Chávez poderá ser censurado e não contar apenas com a cumplicidade de vizinhos silentes por simpatizarem com o bolivarianismo.

Macri representa, na política interna, o fim do confronto sistemático com a oposição, com os produtores agrícolas (que retêm seus estoques), com a mídia (lei aprovada para dividir e enfraquecer o grupo Clarín) e com a própria população, vítima de uma bizarra censura do governo sobre a verdadeira taxa inflacionária argentina – ela deve chegar este ano a 30%.

Nestor e Cristina Kirchner não dialogaram jamais com a oposição, segundo eles suspeita de interesses estrangeiros. A oposição tem sido moralmente desqualificada e a seguir achatada pelos tratores do governo.

Nesse jogo do “nós’” contra “eles” – próprio da Venezuela e em parte também em vigor no Brasil – Estado e governo se misturaram de tal modo que a própria democracia argentina passou a correr riscos.

O Executivo invadiu atribuições do Judiciário e o Legislativo. E surgiram coisas no mínimo estranhas. Exemplo: como a transmissão de jogos de futebol se tornou monopólio do governo, Cristina Kirchner empapuçou esses horários de programação com propaganda partidária e ataques aos opositores.

FOTO: Maria Pirsch/Estadão Conteúdo



A previsão é que um novo protocolo de cooperação seja firmado entre os dois países na próxima semana, durante a Cúpula do Mercosul

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Para o próximo ano, porém, a estimativa foi reduzida por causa das incertezas políticas, que poderiam afetar a aprovação da reforma da Previdência

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Segundo a pesquisa Pnad, a população desocupada chegou a 13,8 milhões de pessoas até maio, permanecendo estável em relação a fevereiro

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