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O clima não está ruim para Temer. Está péssimo


Semana trará a denúncia do procurador Rodrigo Janot (foto). Fragilizado, mesmo depois de vitória no TSE, Mas o presidente por enquanto não cai, afirma a consultoria Eurasia


  Por João Batista Natali 12 de Junho de 2017 às 15:00

  | Editor contribuinte natali@uol.com.br


Absolvido na última sexta (09/06), em processo no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que poderia defenestrá-lo, o presidente Michel Temer começaria, teoricamente, uma lua de mel com o próprio mandato.

Mas não é o que acontece. O principal torpedo contra o casco já mambembe do ocupante do Planalto é a denúncia que o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, apresentará contra ele, esta semana, no Superior Tribunal Federal (STF).

Temer será acusado de corrupção passiva, em representação lastreada nas delações de Joesley Batista, da JBS, e em informações prestadas à Polícia Federal por Lúcio Funaro, doleiro que prestou serviços ao PMDB.

Apesar de tudo, a consultoria Eurasia, citada nesta segunda-feira pelo jornal Valor Econômico, não acredita que o presidente está para cair.

Sem entrar no mérito das acusações do Ministério Público, ela diz a seus assinantes no mercado internacional que Temer apenas se tornará réu se a Câmara dos Deputados autorizar a abertura do processo.

Mas essa autorização pode ser bloqueada com o voto de 172 dos 513 deputados, quórum que o Planalto facilmente reuniria, segundo o consultor-chefe Ian Bremmer, porque boa parte da Câmara também está encrencada “na mesma rede de escândalos”.

A questão, no entanto, não está em saber quais os meios para que Temer se safe dessa nova armadilha. O buraco é bem mais embaixo, e diz respeito à erosão na sua credibilidade.

Janot, segundo informações por certo vazadas pela própria PGR, se baseará na mala com R$ 500 mil que o suplente de deputado Rodrigo Rocha Loures (PMDB-PR) recebeu de um emissário de Joesley Batista.

Joesley disse em delação que o dinheiro fazia parte de uma mesada periódica que seu grupo havia reservado ao próprio Michel Temer, em troca de favores fiscais no governo.

O fato é que, sem a autorização da Câmara dos Deputados, o ministro do STF Edson Fachin não poderia levar adiante o processo por corrupção.

Como, no entanto, a entrega do dinheiro foi filmada – e o vídeo viralizou nos telejornais e nas redes sociais – a inocência do presidente se tornou uma narrativa da mais alta ficção.

UM CALDEIRÃO FERVENDO COM DENÚNCIAS

Outros ingredientes amargos atrapalham a agenda do Planalto.

Um deles está no fato, anunciado sexta-feira, de que o presidente não responderia às 82 questões que lhe foram encaminhadas, via Edson Fachin, pela Polícia Federal.

Elas eram irreverentes e davam claramente a entender que um presidente da República poderia ser tratado como um malfeitor flagrado em meio a um assalto em via pública.

Mas ao ficarem sem respostas, as perguntas, quase todas sobre o circuito do dinheiro de caixa-dois destinado ao PMDB, alimentam a convicção de que nessa história há um forte cheiro de culpa.

Veio a seguir a acusação, que foi capa do último número da revista Veja, de que o presidente encarregou a Abin, o serviço de inteligência do governo, de rastrear o histórico pessoal do ministro Edson Fachin.

Os investigadores e arapongas teriam, por exemplo, descoberto que o ministro voou em jatinhos da JBS, durante a campanha que fez em 2015 para obter uma cadeira no STF,

Temer se apressou em dizer que a operação “jamais foi pensada por mim”. Ele próprio se encarregou, no sábado (10/06), de dar sua versão em telefonema à ministra Carmen Lúcia, presidente do STF.

Mas ela, assustada com a ousadia do rumor, emitiu nota afirmando que, se for verdade, seria “um gravíssimo crime” contra o tribunal que preside.

O episódio, verdadeiro ou não, foi interpretado como uma tentativa de intimidar a Lava Jato, que tem, no STF, Fachin como relator, desde que ele substituiu, em fevereiro, o finado Teori Zavascki.

Essa coreografia policial, judiciária e política caiu num momento também desagradável, em razão das possibilidades de delação formal de Rocha Loures, “o homem da mala” que foi um dos assessores de confiança de Temer no Planalto e que foi recolhido à penitenciária da Papuda, em Brasília, por ordem do STF.

Ele não tem foro privilegiado. Mas seu caso está acoplado ao de Temer.

SIMULAÇÃO DE NORMALIDADE

A única boa notícia, para Temer, chegou nesta segunda-feira do Senado, onde o relator do projeto de reforma Trabalhista, Ricardo Ferraço (PSDB-ES), anunciou que lerá seu texto, terça-feira, na Comissão de Assuntos Sociais.

O relatório, aprovado anteriormente pela Câmara dos Deputados, já passou pela Comissão de Assuntos Econômicos e precisa ainda ser aprovado pela Comissão de Constituição e Justiça.

Superando esses novos obstáculos, iria a plenário, onde precisa apenas da maioria simples para virar lei.

Não será, no entanto, exatamente aquilo que os deputados aprovaram. Alguns compromissos assumidos por Temer supõem a “correção” posterior de dispositivos por meio de Medida Provisória. Entre eles, o que manteria o Imposto Sindical compulsório.

Mas essa aparência de normalidade é quebrada pela reforma da Previdência, que é de tramitação mais delicada, por exigir dois terços dos votos, como ocorre com qualquer reforma constitucional.

Mas a Previdência – com impacto na política de equilíbrio fiscal – está gloriosamente emperrada. E isso desde o dia 17 de maio, quando veio à tona o áudio da conversa de Joesley Batista com Temer.

Aquele foi o dia em que a República também emperrou.

FOTO Elza Fiuza/Agência Brasil