São Paulo, 25 de Julho de 2017

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Lula fez crescer a candidatura presidencial de Bolsonaro
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Nome do ex-capitão do Exército e deputado fluminense subiu mais de 50% em quatro meses, diante do temor de uma volta ao Planalto do ex-presidente petista

É simples assim: a lentidão com que Michel Temer está recuperando a economia fez subir a cotação, para 2018, de Luís Inácio Lula da Silva (PT), o que despertou, como automática reação, o fortalecimento de Jair Bolsonaro (PSC).

Lula e Bolsonaro são a cara e a coroa de uma mesma moeda, por mais que cada um deles tenha os pés fincados em terrenos políticos do mais radical antagonismo.

Ambos foram os grandes personagens da pesquisa de intenção de votos do Datafolha, publicada no último domingo (30/04). Lula manteve a mesma dianteira das pesquisas anteriores – temperada por uma rejeição de 44% dos eleitores, que disseram não votar nele “de maneira nenhuma”.

A grande surpresa, no entanto, foi o espantoso crescimento de Bolsonaro. Em quatro meses, ele passou de 9% para 15% das intenções de voto (ou de 8% para 14%, dependendo de quais fossem seus demais adversários).

Lula tem entre 29% e 31%, e em segundo lugar, quando não é Bolsonaro, a colocação é ocupada por Marina Silva (Rede), que varia de 14% a 16%, exceto na ausência de Lula, quando encabeçaria a intenção, com 25%.

Candidatos do PSDB frequentemente evocados (Aécio, Alckmin, Serra) entraram em forte declínio, abatidos pelas delações da Odebrecht. Lula, sobre quem pesam as acusações bem mais graves, consegue por enquanto vender a imagem de perseguido de Sérgio Moro e de sua equipe de Curitiba.

O prefeito João Doria ainda está engatinhando, pontuando entre 5% e 11%.

O crescimento eleitoral de Bolsonaro foi paradoxalmente adubado, dentro das universidades públicas e das redes sociais, por simpatizantes do Partido dos Trabalhadores.

O horror que o nome dele desperta nesses meios é reiterado com tanta insistência que a rejeição acabou por se tornar um instrumento inverso de propaganda.

UM CONTROVERTIDO EX-CAPITÃO DO EXÉRCITO

De deputado e capitão da reserva do Exército, com reputação antes circunscrita ao eleitorado do Rio de Janeiro, ele virou celebridade nacional da extrema-direita.

Nascido em Campinas (SP), mas com carreira no Rio, Bolsonaro é para o Exército um encrenqueiro.

Chegou a ser preso por reivindicar pela mídia melhores salários para a oficialidade. Envolveu-se num plano, que ele nega, de explodir pequenas bombas em quarteis, numa espécie de campanha terrorista contra a baixa remuneração.

Esse curto histórico, concluído em 1988, quando aos 33 anos passou para a reserva, é o bastante conflitivo para que ele possa ser considerado como o candidato “dos militares”.

Mesmo porque ele hoje defende a tortura e aceita uma intervenção militar, que estão rigorosamente fora da agenda das Forças Armadas.

Eleito pela primeira vez em 1990, e em 2014 o deputado mais votado pelos fluminenses (464 mil votos), Bolsonaro explora com habilidade todo um repertório de preconceitos altamente conservadores, da homofobia à desvalorização dos direitos humanos ou a simples discussão sobre a descriminalização das drogas.

Mas vejam um detalhe importante. É sociologicamente impossível que, entre dezembro e o final de abril (datas das pesquisas do Datafolha), as posições de Bolsonaro tenham crescido no eleitorado de 50% a 60%. É um período muito curto para uma mudança desse porte nas mentalidades.

Tudo indica, desse modo, que Bolsonaro tenha se tornado um escudo, atrás do qual se abrigam os eleitores que passaram a sentir bem mais medo de um cenário eleitoral que traga a hipótese de um novo mandato presidencial de Lula.

Em dezembro de 2015, o instituto da Folha de S. Paulo atribuía ao deputado apenas 4% das intenções de voto. Depois disso, ele pode ter crescido pouca coisa em razão do impeachment de Dilma Rousseff ou de atritos, que a mídia da oposição amplificou, entre ele e a deputada Maria do Rosário (PT-RS) – uma discussão sobre o estupro - ou Jean Willys (Psol-RJ) – que cuspiu no rosto dele.

E LULA ACABOU RENASCENDO

Em julho do ano passado, Lula estava francamente em baixa. Amargava nas pesquisas para 2018 um terceiro lugar, abaixo de Aécio e Marina Silva. Em outubro, as eleições municipais foram trágicas para o PT, e tudo indicava que o nome dele estivesse definitivamente liquidado.

Mas esse quadro se reverteu em dezembro, quando Dilma já estava afastada havia sete meses, o desemprego prosseguia crescendo, e Temer passou a ser visto como um presidente incapaz de recolocar de pé a economia.

Foi quando Lula começou a subir. Seu nome evocava um passado recente de bom crescimento do PIB e fartura de empregos, atributos que Temer não conseguia entregar.

Ele também ganhou pontos pela solidariedade emocional que despertou, ao enviuvar no comecinho de fevereiro.

Com o ex-presidente em alta, a movimentação dos eleitores consistiu na busca de antídotos que não estivessem na mira da guilhotina da Lava Jato. Bolsonaro – objeto de ataques raivosos no Twitter e no Facebook – tornou-se, então, o nome circunstancial.

A questão não está em saber qual dos dois, ele ou Lula, tem menos apego pela democracia. É um critério em que ambos saem perdendo. Bolsonaro por defender o autoritarismo, e Lula por enxergar as instituições do Estado como um instrumento para o projeto político do PT.

Persiste, além disso, a imagem de Bolsonaro como um lobo solitário, sem a mínima estrutura partidária (ele está deixando o minúsculo PSC) ou apoio empresarial. Ele é um aventureiro bem-falante que subiu na vida, com as velas infladas pelos acasos que ele próprio não controla.

De qualquer forma, chegou-se a essa polarização, que é frágil e tem tudo para não durar até o primeiro turno presidencial do ano que vem.

A polarização deixa em aberto um espaço que oscila da centro-esquerda à centro-direita, e que políticos da mais nova geração tendem a ocupar. Uma colunista de O Estado de S. Paulo prevê como alternativas gente como Doria e Fernando Haddad.

Estamos então nesse pé. O medo de Bolsonaro reforça a candidatura de Lula, e o medo de Lula reforça a candidatura de Bolsonaro, deixando uma multidão de milhões de eleitores virtualmente sem outra escolha mais consistente.

FOTO: Dida Sampaio/Fábio Rodrigues/Estadão Conteúdo/Agência Brasil



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