FHC propõe eleições gerais para apagar o incêndio institucional


Ex-presidente contraria o PSDB e espera "gesto de grandeza" de Temer, para que se renove antecipadamente o Congresso e se eleja um novo chefe de Estado


  Por João Batista Natali 16 de Junho de 2017 às 14:00

  | Editor contribuinte natali@uol.com.br


O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso se transformou no grande bombeiro, dentro do esforço para apagar o incêndio de porte institucional que se alastrou nos últimos dias em torno de Michel Temer.

FHC pede que o atual presidente tenha “um gesto de grandeza” e convoque eleições gerais – que serviriam, no mínimo, para renovar antecipadamente o Congresso e escolher um novo chefe de Estado.

Fernando Henrique completa 86 anos neste domingo (18/06). Tem credenciais para se comportar como um patriarca e dar conselhos que contradizem as decisões de seu próprio partido, o PSDB, que na última segunda-feira (12/06) optou por permanecer com seus quatro ministros no governo.

Na semana anterior FHC pendia para o lado do senador Tasso Jereissati (CE), presidente interino do PSDB, que não acreditava num acordo dos tucanos com Temer, já que o desgaste do presidente da República inevitavelmente contaminaria o partido.

Mas FHC se restringia à formalidade constitucional. Afirmava que defender eleições diretas seria um golpe contra a receita legal para encontrar um sucessor de Temer. Sua posição agora é outra.

Durante o feriado de Corpus Christi, o ex-presidente tucano deu entrevista à revista Veja e ao jornal O Estado de S. Paulo. E enviou nota ao jornal O Globo, em que considera as eleições gerais como o desfecho necessário, diante do naufrágio de um presidente encurralado por denúncias de corrupção.

Essas denúncias não se limitam à gravação de Joesley Batista, que completam neste sábado um mês da divulgação e que mudaram radicalmente um cenário que era favorável a Temer e ao cronograma de votação das reformas no Congresso.

As novidades ruins para ele, Temer, compensam amplamente o alívio que ele sentiu com a decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que na sexta passada (09/06) decidiu não cassar seu mandato.

BOLA DE NEVE DESCENDO A LADEIRA

Desde então,  episódios moralmente muito feios se sucederam a uma velocidade vertiginosa.  

O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, tem prontas três denúncias criminais contra o presidente, por corrupção passiva, organização criminosa e obstrução de justiça.

Pela Constituição, tais denúncias, a serem encaminhadas pela PGR ao ministro Edson Fachin, responsável pela Lava Jato no Supremo Tribunal Federal, apenas se transformam em processo penal se forem aprovadas pela Câmara.

E se essa aprovação ocorrer, o presidente é afastado do poder por 180 dias. No atual quadro da crise política, no entanto, seria o último prego no sarcófago do mandato.

O presidente da Câmara, deputado Rodrigo Maia (PMDB-RJ), um dos chefes da tropa de choque de Temer, afirmou que adiará ou eventualmente cancelará o recesso parlamentar  de julho, para que o assunto tramite pela Comissão de Constituição e Justiça e pelo Plenário.

Mas Janot teria acusações ainda inéditas na manga, segundo informações que FHC, numa das entrevistas que deu, atribui ao PSDB. E enviaria um segundo petardo contra Temer quando a Câmara ainda estivesse analisando o conteúdo do primeiro. 

Seria uma forma de enfraquecer o Planalto e provocar a indignação entre os deputados. Temer teria de início o apoio de 250, de um total de 513 na Câmara. São necessários apenas 172 para rejeitar a denúncia do Ministério Público.

A questão é que ninguém sabe ao certo o contorno que essa denúncia terá. Como novidades, há a investigação em torno do coronel da reserva da PM de São Paulo,  João Batista Lima, e de Arlon Viana.

O coronel, auxiliar de confiança de Temer, teria utilizado dinheiro da corrupção para reforma da casa, no bairro paulistano do Alto de Pinheiros, em que mora Maristela Temer, filha do presidente.

Arlon Viana, que foi chefe-de-gabinete da Vice-Presidência em São Paulo, teria supervisionado a reforma da casa da sogra de Temer, em 2014, também com dinheiro da corrupção.

O temor do presidente da República está na possibilidade de o coronel e o ex-chefe-de-gabinete serem proximamente presos. E de aceitarem o compromisso de delação premiada.

A repórter e blogueira Andréia Sadi, da Globonews, publicou que na quarta-feira à noite Temer esteve em São Paulo e se reuniu com a filha em seu escritório para acertar uma linha potencial de defesa. O presidente viajou acompanhado  de seu principal homem de confiança, o ministro Moreira Franco.

CAIXA DOIS PARA O PMDB SERIA COISA PEQUENA

As reformas de dois imóveis seriam coisa pequena. O temor, no entanto, está na possibilidade de se tratarem de fios que, se devidamente puxados, dariam acesso a questões bem mais importantes.

Os rumores preocupantes para Michel Temer ultrapassam a esfera do caixa dois. Essa maneira de receber doações eleitorais seria, nas circunstâncias, compreensíveis, em se tratando de alguém que, antes de assumir o Planalto, foi presidente nacional do PMDB.

Não seria, portanto, dinheiro para o partido.  Seria de modo mais prosaico dinheiro para enriquecimento pessoal. O que coloca automaticamente o crime numa outra esfera ética.

As virtuais novas revelações ocorrem num momento institucionalmente bizarro. O Ministério Público não se conforma com a absolvição da chapa Dilma-Temer pelo TSE. E tem em mãos ingredientes para dar o troco.

Há paralelamente, por parte da PGR, uma evidente pressa em enfraquecer ainda mais o presidente da República, antes que ele indique, em setembro, o sucessor de Rodrigo Janot no cargo de procurador-geral.

Os procuradores acreditam existir um plano para enquadrar a Lava Jato. E também acreditam que, permanecendo no Planalto, Temer o executará sem o mínimo escrúpulo. 

E para tanto seria aplaudido por centenas de deputados e dezenas de senadores que acreditam que o combate à corrupção assumiu contornos irracionais e incompatíveis com a suposta normalidade política.

É nesse quadro que Fernando Henrique Cardoso aparece com a biografia de alguém que, octogenário, não tem nada a perder. Mesmo se, para tanto, sacrificar as ambições imediatas de seu partido político.

O ideal, para os envolvidos nessa maré de corrupção, potencializada pela Odebrecht e pela JBS, seria varrer todas as informações delicadas para debaixo do tapete. O problema, no entanto, é que o bolo comprometedor cresceu para além do controlável. 

FOTO: Agência Brasil