Brasil

A encrenca das delações afundou a política. País está às cegas


Vídeos da Odebrecht revelaram do caixa dois ao achacamento, com dinheiro em troca de leis e concorrências com cartas marcadas. Não há ainda solução à vista para a crise


  Por João Batista Natali 17 de Abril de 2017 às 14:00

  | Editor contribuinte natali@uol.com.br


Em termos de investigação pelo Judiciário, é tão grande a encrenca criada pela delação dos executivos da Odebrecht que a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) sugeriu, nesta segunda-feira (17/04), que seja criada uma força-tarefa no Supremo Tribunal Federal (STF), só para cuidar dos 98 políticos com foro privilegiado.

Caso algo do gênero não seja feito, em alguns anos prescreveriam os casos com pedidos de investigações agora apresentados.

Isso pela morosidade do tribunal, já entupido com outros processos, e sem velocidade para deliberar ao lado da Procuradoria Geral da República e pela Polícia Federal.
 
Levantamento feito por O Globo separa, nesse conjunto de casos, o jogo mais criminoso do achacamento e da corrupção do jogo menos criminoso da prática de caixa dois. No primeiro caso, estão 67 (68,4%) dos investigados, enquanto os 31 restantes deixaram de informar à Justiça doação recebida da Odebrecht.

O grupo dos achacadores está sujeito a penas de até 22 anos de prisão.

O Estado de S. Paulo faz um outro cálculo, igualmente assustador. No grupo de investigados, 40 são suspeitos de receberempropina da Odebrecht.

Entre os demais levantamentos, o jornal Valor Econômico listou 82 casos em que as doações da Odebrecht foram acompanhadas por alguma forma de contrapartida, como voto em projetos ou licitações fraudulentas.

Existem, nitidamente, dois grupos de criminosos que não se confundem, já que um deles trocou dinheiro por voto ou decisões administrativas favoráveis à empreiteira, enquanto o outro aceitou caixa dois para as suas campanhas eleitorais, sem aparente contrapartida pessoal.

Mas há também cerca de outros 200 casos entregues ao Superior Tribunal de Justiça. Quando o investigado não exerce cargo eletivo na esfera federal, ou então, sem foro privilegiado, tem seu caso encaminhado à primeira instância.

DUAS FORMAS SEPARADAS DE CORRUPÇÃO

Assim, e resumindo mais uma vez, há quem pegou dinheiro para fazer campanha e há quem trocava dinheiro por prestações de serviços que caracterizam a corrupção.

E os que não estão envolvidos? Ao menos, por enquanto, trata-se de um grupo majoritário. Dos 27 governadores, apenas dez são investigados. Dos 28 ministros de Michel Temer, o mesmo se passa com nove. E ainda 474 deputados federais, de um total de 513, ou 60 senadores, de um total de 84, tampouco envolvidos.

Mas se esses dados demonstram, de um lado, que é incorreto afirmar que “todo político é corrupto”, de outro lado a lista do procurador Rodrigo Janot e as gravações dos depoimentos dos 88 executivos da Odebrecht colocaram a classe política, como um todo, em péssimos lençóis.

Há uma crise de credibilidade que atinge 26 partidos políticos e que não tem como alvo o PT, o PP e o PMDB, privilegiados nos primeiros três anos da Lava Jato e que formavam a coluna vertebral da base de apoio aos 13 anos de Lula e Dilma.
 
Em poucos dias, abriu-se um abismo entre os cidadãos e seus dirigentes, pela importância dos envolvidos e pelo relativo anonimato dos que não foram citados.

Mas não há ainda soluções à vista para tirar o país da atual vertigem que o acometeu.

DE UM ACORDÃO À BOIA DE SALVAÇÃO PARA LULA

A hipótese pessimista foi levantada domingo, em entrevista à Folha de S. Paulo, por Eliana Calmon, ministra aposentada do STJ e ex-corregedora nacional de Justiça.

Ela alertou para o risco de um “acordão” no Congresso, em que os envolvidos legislariam em causa própria para não naufragarem com a crise que eles próprios, ao longo do tempo, acabaram por criar.

Mas existem rumores, negados com ênfase no domingo (16/04) por Fernando Henrique Cardoso, de negociações para se chegar a um acordo de sobrevivência política dos grandes partidos que barrasse o caminho a aventureiros que se preparariam para 2018.

A solução faria sentido se a ela aderissem, além de FHC, o presidente Temer e Luiz Inácio Lula da Silva.

A Folha mantém a versão de que Lula se movimenta para essa articulação. Mas tucanos próximos de FHC e o site informativo O Antagonista acreditam que há nisso muita fantasia e pouca realidade.

O que torna menos verossímil essa solução é a vulnerabilidade extrema em que a imagem de Lula mergulhou, depois da divulgação dos vídeos de Emílio e Marcelo Odebrecht.

O ex-presidente petista sai com a reputação de um político venal, que trocou por dinheiro a expansão do setor petroquímico da Petrobras (que deveria ter comprado essa área da Ipiranga), Medidas Provisórias e outras iniciativas favoráveis à Odebrecht.

Em troca, ele teria recebido R$ 13 milhões em dinheiro vivo e outras doações (sítio, Instituto Lula, dinheiro para o filho e para um sobrinho, remuneração por conferências fictícias) e todo um cabedal de fatos que o coloca virtualmente na condição de criminoso.

Lula não está sozinho. Duas das mais expressivas lideranças do PSDB, José Serra e Aécio Neves, segundo as delações, também se deixaram corromper. Geraldo Alckmin recebeu caixa dois de campanha, mas não há quanto a ele a suspeita de enriquecimento pelo propinoduto da Odebrecht.

Todas essas informações, de Alckmin a Lula, precisarão ser ainda comprovadas pelo Judiciário. Mas as delações bastaram para fazer secar o chão pisado por esses personagens. O Brasil entrou nesta semana vazia de lideranças fortes e com futuro.

O que, independentemente da opção política de cada um, é algo trágico para a própria sobrevivência da política e da democracia.

 

IMAGEM: Thinkstock