Escrevi semana passada, na coluna "O presidente que é filho do Brasil", o seguinte: "Aposte o leitor. Ano que vem, eleitoral, vai ser uma baixaria só. Oficializada."
Não precisou muito. A baixaria já começou. Conhecedores que são das táticas de intimidação, exímios praticantes de suas técnicas quando na oposição, e perfeitos aplicadores de seus postulados quando fartamente acomodados nas gordas poltronas do poder, os atuais mandatários do País não têm limites em suas formulações oratórias e certamente também na ação prática, estejam em que trincheira estiverem. Afinal, muitos de seus membros se formaram na escola que assimilou técnicas desenvolvidas em favor da manutenção do poder a qualquer custo (após sua tomada também a preço infinito), perpetradas e financiadas num período da história em que ainda fazia, mas começava a perder sentido, a ditadura do proletariado e o marxismo/leninismo inspirador de muitos dos atuais governantes.
A alusão é geral porquanto o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e seu grupo político, assim como o atual presidente Lula e seus seguidores, foram em determinado momento de nossa história ainda recente, da oposição que combateu o regime militar instalado então no País – e todos eles, de inspiração socialista, para ser suave, chegaram ao poder divididos, o que persiste até hoje quando se olha o cenário político do Brasil e se comparam os nomes hoje no poder e os que militavam na oposição, em busca do encerramento do período de eleições indiretas e instrumentos institucionais não-democráticos.
Democratizado o País, a oposição de esquerda de então chegou ao poder via PSDB, após o frustrante período da primeira eleição para presidente que levou Fernando Collor ao Planalto e, depois dele, Itamar Franco, seu vice, para completar o mandato. A esquerda, aglutinada inicialmente no PMDB e depois no PSDB, de viés mais social democrático (a do PT era mais radical) levou Fernando Henrique a ministro de Itamar , de onde alçou à Presidência pelo voto direto graças ao Plano Real, que implementou como ministro da Fazenda e controlou o monstro da inflação que degradava a economia (e a moral) do País.
A história é conhecida.
Por três vezes o PT, com Lula, tentou chegar à frente. Perdeu para Collor e duas vezes para FHC; na quarta tentativa, mediante uma maquiagem total em sua figura, comportamento e compromissos do partido, venceu o pleito e para governar criou uma base aliada que, com o PT e o governo, vive até hoje sob a imagem do anestesiamento das forças da sociedade através das bolsas distribuídas à farta e dos patrocínios a entidades e órgãos tradicionalmente oposicionistas a qualquer governo em outras épocas. Sem falar nos mensalões e nas cuecas recheadas de dólares, que marcarão na história essa passagem pelo poder.
Preocupados com um projeto de permanência eterna no poder, em que esse fim justifica (para os interessados) quaisquer meios, criou-se um retrocesso perigoso apontado em artigo pelo ex-presidente e criticado por figuras que sempre deram apoio à oposição, quando oposição, como Caetano Veloso. As considerações de FHC e as críticas de Caetano Veloso foram respondidas pelo presidente como só ele sabe fazer: em tom dramático, de conspiração e de acusações. Fernando Henrique é Hitler e Caetano é burro. E, em plena campanha eleitoral, afrontando a legislação de forma ousada e sem constrangimento (herança de um passado de lutas) a candidata de Lula à sua sucessão, Dilma Rousseff, ataca com sua veemência característica e que vem tentando camuflar nas transformações físicas e declaratórias, chamando a oposição de patética e esdrúxula e a imprensa de comprometida. Seu verdadeiro eu vai com certeza aflorar no calor da campanha.
No horizonte institucional do País há nuvens perigosas se formando É recomendável aos homens de bem a leitura do artigo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, publicado domingo retrasado no Estadão e que fez vir à tona a forma verdadeira de ação política do governo atual. Dilma, como Marta Suplicy, pelo temperamento intempestivo e destemperado, deve escorregar nas próprias declarações e ações, ao longo da campanha. Que, para ela, já começou de forma ofensiva, repita-se, à legislação. Consideram-se acima do bem e do mal e das leis. Já provaram que vale tudo na luta pelo poder. E a oposição, se não quiser mesmo ser patética, como disse Dilma, terá que responder.
Numa campanha eleitoral, o Brasil só deveria ganhar com a consolidação de sua democracia Do jeito que vai a América do Sul e pela forma como os atuais detentores do poder em muitos países e, também aqui no Brasil, demonstram que vão jogar para mantê-lo, é de se temer pelo País.
Paulo Saab é jornalista e escritor