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Ignorando o essencial

É impossível entender a história recente sem conhecer certos fatos sobre o comunismo.
Olavo de Carvalho - 2/4/2009 - 21h00

Hß alguns dados hist¾ricos elementares sobre o movimento comunista, ignorados pela maioria e mal conhecidos ou bem esquecidos pelas minorias letradas e dirigentes, sem os quais Ú impossÝvel, literalmente impossÝvel entender o que quer que seja da hist¾ria recente. Se vocÛ procurar se informar a respeito e comeþar a levar esses dados em conta, verß quanta coisa obscura se esclarece automaticamente, sem necessidade de grande esforþo interpretativo.





l O comunismo foi e Ú, ao longo da hist¾ria humana, o ·nico û repito: o ·nico û movimento polÝtico organizado em escala mundial, com ramificaþ§es e agentes nos lugares mais remotos do planeta, disciplinados e capacitados para entrar em aþÒo de maneira imediata, coordenada e simultÔnea ao primeiro chamado de seus centros de comando.



l Embora tendo a seu serviþo uma quantidade enorme de organizaþ§es e partidos de massa, o comunismo Ú substancialmente um movimento clandestino, cujo comando e cujos planos de aþÒo devem permanecer invisÝveis aos profanos, mesmo nas Úpocas de legalidade em que vßrias organizaþ§es comunistas atuam publicamente sem sofrer a menor perseguiþÒo. O primado da elite clandestina sobre a lideranþa visÝvel Ú, pelo menos desde LÛnin, uma clßusula pÚtrea da estratÚgia comunista. ╔ impossÝvel compreender essa estratÚgia e as tßticas que a implementam levando em conta somente a atuaþÒo ostensiva dos lÝderes comunistas mais visÝveis em cada paÝs, sem acesso Ós discuss§es internas e Ós conex§es internacionais de cada organizaþÒo.



l O comunismo foi e Ú, em todo o mundo e em todas as Úpocas, o ·nico movimento polÝtico que teve e tem a seu dispor recursos financeiros ilimitados, superiores Ós maiores fortunas conhecidas no Ocidente e aos orþamentos de muitos governos somados. Suas possibilidades de aþÒo devem ser medidas na escala dos seus recursos.



l S¾ uma parcela Ýnfima da atividade comunista consiste em propaganda doutrinßria reconhecÝvel direta ou indiretamente. A parte maior e mais significativa consiste em infiltrar-se e mesclar-se em toda sorte de organizaþ§es û partidos polÝticos (inclusive liberais e conservadores), mÝdia, sindicatos, empresas estatais e privadas, instituiþ§es culturais, educacionais, religiosas e de caridade, Forþas Armadas, Maþonaria, a lista nÒo tem fim û de modo a tornß-las instrumentos da estratÚgia comunista e a controlar por meio delas toda a sociedade, fazendo do Partido ôum poder onipresente e invisÝvelö (a expressÒo Ú de Antonio Gramsci, mas a tÚcnica existia desde muito antes dele). ╔ pueril imaginar que, uma vez inseridos nessas entidades, os comunistas aÝ se dediquem a doutrinaþÒo ou proselitismo, como se fossem pastores protestantes espalhando o Evangelho entre infiÚis. A arregimentaþÒo de todas as forþas para que sirvam Ó estratÚgia comunista Ú um mecanismo tremendamente sutil e complexo, que envolve doses maciþas de camuflagem e despistamento, com muitos lances paradoxais pelo caminho.



l ╔ tolice imaginar o comunismo como uma ôdoutrinaö ou ôidealö, sobretudo quando se entende por isso a pregaþÒo aberta da aboliþÒo da propriedade privada. O movimento comunista nunca teve nem precisou ter qualquer unidade doutrinßria, e jß provou mil vezes sua capacidade de adaptar-se taticamente Ós f¾rmulas ideol¾gicas mais dÝspares, de maneira sucessiva ou simultÔnea, desnorteando por completo o observador leigo (incluo nisto os polÝticos em geral e a quase totalidade dos intelectuais liberais e conservadores). Campanhas ateÝsticas as mais truculentas, por exemplo, coexistem pacificamente, no seio do movimento comunista, com o aproveitamento do discurso religioso como meio de atingir o coraþÒo das massas. Mutatis mutandis, a exploraþÒo dos sentimentos nacionalistas extremados vem lado a lado com o esforþo de diluir as soberanias nacionais em unidades maiores, regionais ou mundiais, de modo que, por trßs da cena, o movimento comunista se beneficia tanto das resistÛncias patri¾ticas quanto do poder global em ascensÒo. A unidade do movimento comunista Ú de tipo estratÚgico e organizacional, nÒo ideol¾gico. O comunismo nÒo Ú um conjunto de teses: Ú um esquema de poder, o mais vasto, fexÝvel, integrado e eficiente que jß existiu. Mesmo o radicalismo islÔmico, hoje em rßpida expansÒo, nada poderia sem o apoio da rede mundial de organizaþ§es comunistas.



l Tolice maior ainda Ú imaginar que a oposiþÒo l¾gico-formal entre os conceitos abstratos de capitalismo e comunismo se traduza, na prßtica, em conflito mortal entre capitalistas e comunistas. └ variedade de diferentes situaþ§es locais e temporais corresponde uma infinidade de nuances e transiþ§es, com um vasto espaþo para os arranjos e cumplicidades mais estranhos em aparÛncia (s¾ em aparÛncia). NinguÚm entenderß nada do mundo hist¾rico em que vive hoje se nÒo tiver em conta a longa colaboraþÒo entre o movimento comunista e algumas das maiores fortunas do Ocidente, por exemplo Morgan, Rockefeller e Rothschild. Os livros clßssicos a respeito sÒo os do economista inglÛs Anthony Sutton, mas jß em 1956 o ComitÛ Reece da CÔmara de Representantes dos EUA levantou provas substanciais de que algumas fundaþ§es bilionßrias estavam usando seus recursos formidßveis ôpara destruir ou desacreditar o sistema de livre empresa que lhes deu nascimentoö. Essas fundaþ§es estÒo hoje entre os mais robustos pilares de suporte do governo socialista de Barack Hussein Obama.



O desconhecimento ou incompreensÒo desses fatos entre liberais e conservadores estß na raiz de sua incapacidade de opor uma resistÛncia sÚria Ó marcha triunfante do comunismo na AmÚrica Latina. Muitos ainda acreditam, por exemplo, que serß uma grande vit¾ria da democracia obrigar as Farc a abandonar a luta armada para transformar-se em partido legal. NÒo entendem que criar uma forþa polÝtica reconhecida Ú, no fim das contas, o ·nico objetivo da luta armada û na Col¶mbia ou em qualquer outro lugar.

Guerrilhas nÒo vencem guerras: tudo o que desejam Ú uma derrota politicamente vantajosa. Por isso, ao mesmo tempo que trocam tiros com as forþas do governo, na selva e nas cidades, colocam seus agentes em postos-chave dos partidos esquerdistas legais, de onde clamam contra o derramamento de sangue e apelam dramaticamente ao retorno da legalidade. Fizeram isso no Brasil, fazem agora na Col¶mbia.



Enquanto os liberais e conservadores nÒo obtiverem uma clara visÒo de conjunto do fen¶meno enormemente complexo do comunismo, enquanto insistirem em se opor somente Ós facetas mais imediatas e repugnantes desse movimento, se nÒo apenas Ós doutrinas comunistas consideradas abstratamente, estarÒo condenados Ó derrota mesmo quando se julgam vencedores.



O fato de que jamais tenha havido uma internacional anticomunista torna difÝcil para muitas pessoas obter essa visÒo de conjunto, que os pr¾prios comunistas obtÛm tÒo facilmente. Mas a ausÛncia de suporte social nÒo pode servir de desculpa para a preguiþa intelectual. Hß sempre algumas inteligÛncias individuais capazes de raciocinar acima das perspectivas grupais, quando existem, ou sem elas, quando nÒo existem. Nada justifica que essas inteligÛncias permaneþam Ó margem das discuss§es p·blicas, deixando aos ignorantes o monop¾lio dos microfones.

Neste como em todos os demais assuntos humanos, quem nÒo estudou nada estß cheio de certezas simpl¾rias e as proclama com um ar de tremenda superioridade, sem perceber o papel ridÝculo que faz. Quem estudou fica Ós vezes parecendo maluco ou excÛntrico, mas, afinal, para que Ú que alguÚm estuda, se nÒo Ú para ficar sabendo de algo que a maioria nÒo sabe?



Olavo de Carvalho Ú ensaÝsta, jornalista e professor de Filosofia

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