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Os insuspeitíssimos

Estratégia comunista é infiltrar-se na Igreja, esvaziá-la do conteúdo espiritual e usá-la como instrumento da revolução.
Olavo de Carvalho - 8/3/2009 - 20h31

Se vocÛ se interessa pelos rumos da polÝtica mundial, chega um dia em que tem de escolher entre compreender os fatos e continuar tentando parecer um sujeito normal e equilibrado. Normalidade e equilÝbrio sÒo coisas altamente desejßveis, mas um esforþo exagerado para simular calma e ponderaþÒo quando na verdade vocÛ estß perplexo e desorientado prova apenas que vocÛ Ú um neur¾tico incapaz de suportar suas pr¾prias emoþ§es.



Como o calmante artificial mais popular consiste em negar as realidades perturbadoras, hß muito tempo os estrategistas revolucionßrios e os engenheiros sociais a seu serviþo jß aprenderam a usß-lo como instrumento de controle da opiniÒo p·blica. O truque Ú de um esquematismo espantoso: eles simplesmente adotam o curso de aþÒo mais ousado, estranho, inesperado e inverossÝmil, e ao mesmo tempo estigmatizam como louco paran¾ico quem quer que diga que estÒo fazendo algo de anormal.



De cada dez cidadÒos, nove caem no engodo. A inseguranþa mesma da situaþÒo faz a maioria apegar-se a falsos sÝmbolos convencionais de normalidade, sufocando os fatos estranhos sob o peso dos lugares-comuns consagrados e assim ajudando a tornar ilusoriamente secreto o que na verdade estß Ó vista de todos.



Os exemplos de aplicaþÒo dessa estratÚgia desde o inÝcio do sÚculo 20 sÒo tantos, que seu estudo bastaria para constituir uma disciplina cientÝfica independente. Vou aqui citar apenas um, cuja magnitude contrasta com a escassez de interesse geral em conhecÛ-lo.



Desde a dÚcada de 20, enquanto os regimes comunistas promoviam a mais brutal e ostensiva perseguiþÒo aos cristÒos nos seus territ¾rios, os grandes estrategistas do comunismo û numa gama que vai de Stßlin a Antonio Gramsci û jß haviam chegado Ó conclusÒo de que, nas naþ§es democrßticas, o ataque frontal Ó Igreja nÒo ia funcionar: o que era preciso era infiltrar-se nela, corrompÛ-la e destruÝ-la por dentro, esvaziß-la de todo conte·do espiritual e usß-la como caixa de ressonÔncia para as palavras-de-ordem emanadas do comando revolucionßrio.



Todo mundo jß ouviu falar disso. NÒo hß quem nÒo saiba que hß comunistas na Igreja. Mas quantos sÒo? Quem sÒo? Quais suas formas de aþÒo? Como identificß-los, denunciß-los e expulsß-los? Serß razoßvel imaginar que a substÔncia letal injetada no corpo da Igreja se reduza aos mais ¾bvios e barulhentos "padres de passeata", como os chamava Nelson Rodrigues, e que nÒo haja por trßs deles agentes de nÝvel incomparavelmente mais alto, agindo de maneiras mais discretas, camufladas e decisivas? AÝ, de s·bito, cessa toda a curiosidade. Perguntas naturais û inevitßveis mesmo, para o fiel que se preocupe com a integridade da Igreja û comeþam a parecer, de repente, inconveniÛncias de mau gosto, sinais de doenþa mental, manifestaþ§es de desrespeito Ó hierarquia eclesißstica. A pretexto de evitar o escÔndalo, reprime-se a investigaþÒo do crime, semeando escÔndalos mil vezes maiores no futuro.



Recentemente, Bella Dodd, ex-agente soviÚtica que jß denunciara a infiltraþÒo comunista na Igreja em seu livro The School of Darkness, consentiu em dar ao p·blico, pela primeira vez, uma idÚia mais exata das dimens§es do fen¶meno. Ela disse que havia milhares de agentes encarregados da operaþÒo, cada um tratando de colocar em seminßrios e outras instituiþ§es religiosas o maior n·mero possÝvel de "adormecidos", isto Ú, agentes sem nenhuma missÒo imediata, encarregados de apenas permanecer dentro da Igreja, construindo identidades aparentes de cat¾licos fiÚis, aguardando instruþ§es que poderiam vir dentro de uma, duas ou trÛs dÚcadas.



Bella Dodd, sozinha, colocou na Igreja mais de mil e duzentos "adormecidos". O total dos agentes infiltrados s¾ nas dÚcadas de 30 e 40 dificilmente estarß abaixo de cem mil, sem contar os que vieram depois, quase que certamente em n·mero maior. Muitos desses s¾ entraram em aþÒo na Úpoca do ConcÝlio Vaticano II. Outros continuam subindo discretamente na hierarquia ou em organizaþ§es leigas, onde uma de suas mais ¾bvias funþ§es Ú apagar os sinais da pr¾pria presenþa e, sob os pretextos mais santos, desestimular todo anticomunismo sistemßtico, boicotando os grupos e organizaþ§es que insistam em continuar obedecendo Ó ordem de Pio XII, transmitida a todos os cat¾licos do mundo, para que combatessem o comunismo atÚ com risco de suas pr¾prias vidas.



Mais nefasta do que a tagarelice dos not¾rios padres vermelhos Ú a aþÒo amortecedora, castradora, empreendida desde dentro e desde cima por prelados e lÝderes leigos aparentemente respeitßveis, imunes a qualquer suspeita, cuja funþÒo estratÚgica nÒo Ú pregar o comunismo, mas simplesmente secar as fontes do anticomunismo cat¾lico atÚ que a Igreja se resuma, como no Brasil de hoje se resume, Ó Igreja esquerdista militante e agressiva de um lado, e de outro a Igreja apolÝtica, omissa, silenciosa, manietada, debilitada e doente.



Mitos, para justificar o injustificßvel, alegam o primado do espiritual. Nossa missÒo, dizem, Ú orar e buscar a santidade, nÒo sair em campo de armas em punho. Mas a hipocrisia desses indivÝduos revela-se da maneira mais patente tÒo logo sÒo testados: se permanecem silenciosos e tÝmidos quando suas organizaþ§es e a Igreja como um conjunto sÒo difamadas e cobertas de inj·rias pela esquerda, muito outra Ú sua reaþÒo quando alguÚm os critica desde um ponto de vista cristÒo e denuncia sua omissÒo e preguiþa. AÝ reagem com a f·ria de mil dem¶nios, desancando o infeliz como se fosse um rebelde, um heresiarca, um dinamitador de sacristias.



Muitos dos que fazem isso, Ú claro, nÒo sÒo agentes infiltrados. SÒo apenas covardes genuÝnos, afetados da sÝndrome de simulaþÒo de normalidade que mencionei no inÝcio deste artigo. Mas Ú impossÝvel que estes, tÝmidos por natureza, entrem em combate com tanta presteza sem ser incitados pelos primeiros. Simplesmente nÒo Ú verossÝmil que tanta omissÒo em face do comunismo, aliada a tanta virulÛncia contra o anticomunismo, nÒo tenha nada de comunista nas fontes que a inspiram.





vo de Carvalho Ú jornalista, ensaÝsta e professor de Filosofia

Comentários
Marcelo Prieto
9/3/2009 08:42:42
Mais uma vez, parabenizo ao Diário do Comércio, por proporcionar que tenheamos acesso a tão ilustre pensador mundial. Professor Olavo de Carvalho, mais uma vez brilhante.
     
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